terça-feira, fevereiro 19, 2008

Na Linha Da Utopia [19.02.2008]

Maus-tratos, animais!

1. Ainda bem que os novos poderes da comunicação têm a força de acordar para determinados problemas. Desta forma, quantos alertas, ora com excesso ou com defeito, já foram passando à consciência colectiva na defesa dos oceanos, dos rios, das florestas e da Vida. O que sai na televisão ou anda na internet, (nem sempre sendo verdade) em determinadas causas, ganha uma força libertadora com impactos determinantes, mesmo em casos de justiça que envolvem pessoas e cidadãos, na procura despertadora de uma maior consciência respeitadora. É pena, mas é verdade: tantas vezes só desta forma e pelas comunicações sociais alguns problemas obtêm a luz ao fundo do túnel. Quem a este respeito não se lembra de Fernando Pessa (já lá vão uns anos), que na sua “peregrinação” por Lisboa detectava os problemas de tal forma da praça pública que os mesmos obtinham solução imediata. Também hoje assim continua.

2. O caso destes dias que destacamos refere-se aos maus-tratos dados por humanos a animais. A espécie (humana) considerada superior tem os comportamentos mais inferiores... Infelizmente, nada de novo; mas desta vez com impactos novos. Nos Estados Unidos, um vídeo filmado por uma organização dos direitos dos animais denuncia a barbaridade para com animais bovinos em matadouro (que dizer quando se espeta a empilhadora brutamente contra animais vivos?! E muito mais…). As imagens percorrem o mundo. A brutalidade desses humanos é escandalosa. Graças à visibilidade, os efeitos estão aí: a maior retirada de carne de vaca de sempre dos EUA (total de 65 mil toneladas) desta empresa que servia muita escolas e instituições sociais.

3. Além das consequências para a saúde pública, este facto relança o alerta sobre os maus-tratos para com todos os seres vivos, e especialmente os animais. Crueldade exercida com seres indefesos (seja a própria floresta, os mares, os animais…) manifesta bem alto como continuamos de humanidade, pois as acções sempre foram e são o espelho do ser. Uma renovada ordem da racionalidade transversal afirma-se hoje como imperativo ético, na relação do ser humano com todas as realidades existentes. As perspectivas do desenvolvimento sustentável e da biodiversidade também obrigam ao progresso de todos os conhecimentos que promovam as dignidades situadas de cada ser vivo. Neste quadro, o lugar especial dos humanos só pode ser actuar em conformidade com a “razão” que, porque conhece, respeita condignamente. Afinal, não será isto que ainda caracteriza o Homem?!

Alexandre Cruz [19.02.08]
[imagem Fernando Pessa ] fonte: http://blog-static.excite.eu

Na Linha Da Utopia [18.02.2008]

As bases do que conta

1. Se a meta final de tudo é uma edificação humana (pessoal e social) gratificante, então a chave de leitura do que conta terá de corresponder a esse mesmo ideal a construir. Há realidades que valem mesmo a pena apostar, outras nem tanto. É certo que muitas vezes a história se constrói à revelia e que é preciso errar primeiro para acertar depois. Mas, aos tempos que vivemos não bastam as boas intenções, e mesmo, talvez, a forma mais justa de avaliar e considerar uma determinada aposta deva ser sempre a resposta à pergunta fundamental: isto ou aquilo, “em que servirá a comunidade?” Não havendo tempo e lugar para esta questão, perder-se-á o horizonte das finalidades últimas.

2. É premente a necessidade de construir a partir das bases. Do que realmente se procura realizar ao serviço das pessoas concretas. As linhas sociais e políticas não podem desgarrar os princípios da sua aplicação humana e dignificante. Tantas vezes, dramaticamente, parece que as pessoas contam pouco para os sistemas que vivem das médias e números. Sem dúvida, todos os passos do rigor, qualidade, exigência, avaliação, visão programática são fundamentais a uma sociedade que procure aperfeiçoar-se com justiça. Mas quando esta procura não dá lugar à visão de conjunto e à participação abrangente em ordem ao consenso máximo possível, verificar-se-á, no momento seguinte, uma desidentificação que acaba por comprometer quase tudo…

3. Entre o que conta nos mega critérios das super-estruturas e o que deve contar efectivamente como essencial proximidade de relação, talvez possamos olhar para uma “freguesia média” de Portugal e a partir dela estabelecer o possível paralelismo para com a complexa gestão governativa nacional. Talvez as freguesias portuguesas, no esforço de proximidade serviçal para com as populações e nos múltiplos relacionamentos abertos e cooperantes tanto nas situações difíceis como nas festivas, tenham muito a dizer aos poderes centrais que, muitas vezes, preferem o sítio do gabinete informático que distancia as ideias da sociedade diária concreta das pessoas.

4. Se o que tem de contar tem de ser a “bitola” das comunidades concretas, então terão de ser mesmo valorizados e reconhecidos os esforços (como serviços às populações) que procuram recriar esta vivência diária de um povo que traz consigo a “alma” das gentes e terras seculares. Às vezes há tanta distância dos poderes às bases, desconhecimento este que se detecta cabalmente quando determinadas “ordens” teóricas deitam por terra o “resto” de pertenças que existem. A única via é mesmo o envolvimento naquilo que a todos pertence, e, acima de todos os ventos, modas e marés, sentir-se que “servir” é mesmo o que conta.

Alexandre Cruz [18.02.08]
[imagem freguesia de Faia - Sernancelhe] fonte: http://sernancelhe.planetaclix.pt

Na Linha Da Utopia [17.02.2008]

Fidelidade e coesão social

1. Talvez possa parecer que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Que tem a fidelidade conjugal a ver com a coesão social? Será entrar na esfera privada tirando ilações precipitadas para o terreno do que é público? Em última análise, a pergunta é: que tem a família como comunidade informal a ver com a sociedade em geral? Que fronteiras, implicações, possibilidade de laços (no respeito devido pelas autonomias) na compreensão justa daquilo que é a liberdade pessoal e o compromisso da vida em sociedade? As perguntas poderiam nunca mais acabar, em terreno de não fácil abordagem, onde não se quer nem que outrem entre pela casa dentro a impor uma qualquer lei, nem que cada pessoa e família vivam de tal modo afastados da sociedade que se tornem indiferentes àquilo que é o bem comum.

2. No recente dia dos namorados, que a propaganda foi inventando, exaltando, “impondo”, em Inglaterra foi publicado, no jornal The Guardian, um interessante estudo sobre a fidelidade e a evolução do homem. Johnjoe McFaden, professor de genética molecular, defende a sua tese de que foi a «fidelidade que permitiu aos nossos antepassados desenvolver a inteligência social e a coesão social», tendo os humanos a sorte de pertencer a espécie que se comporta de forma predominantemente monogâmica, revela o estudo. Também, destaque-se que alguns trabalhos recentes de investigação nesta área «sugerem que as exigências cognitivas requeridas para formar casais estáveis podem estar entre os factores para o desenvolvimento dos instrumentos de inteligência social que tornaram possíveis as nossas sociedades» (Público, 15 Fev.: 54).

3. Talvez nos possamos colocar no filme da história do processo da evolução do ser humano, mesmo desde os tempos pré-suméria, e concluir que as sociedades humanas na sua procura crescente de capacidade de coexistência em sociedade terão tido como modelo de referência a vivência familiar. Nada de novo, afinal esta é a comunidade primordial. Tal facto significará que a busca de coesão social, pela família, foi derrubando os muros do individualismo, do particularismo, do pensar só em si. Olhando para os tempos da actualidade, uma pergunta vai-se impondo: as sociedades ao esquecerem a família na sua realidade ancestral (chame-se: homem, mulher e filhos) perderão as capacidades de coesão social?...

4. Seja dito o que se vai dizendo (como constatação e preocupação): do ano 2000 para cá, já metade dos casamentos terminaram em divórcio. Muita da educação (possível) é monoparental. As raízes de pertença vão ficando cada vez mais superficiais, vivendo-se pouco ligado a alguma realidade de comunidade viva (?)... Neste cenário, e na pressuposta liberdade de tudo, quem se preocupa com o que acontece? Há quem a sério se preocupa e procura apontar caminhos… E há pais e educadores que descobriram o segredo das pertenças a um grupo / comunidade como alavanca para os valores fundamentais. Afinal, sendo tudo questionável, uma coisa não o é: quanto mais o valor Família semearmos, mais aconchego um dia colheremos! Quando não, será solidão…

Alexandre Cruz [17.02.08]
[imagem Evolução humana] fonte: http://joaopaulopacheco.com

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Um artigo de Pedro Rolo Duarte

Quando acordo, ligo o rádio e oiço os noticiários da TSF e da Antena 1. Anoto os temas dos fóruns de cada uma das estações. Bebo chá na sala, e vou picando a SIC-Noticias e a RTP-N. Depois recupero a minha peregrinação diária à blogoesfera para completar o trabalho de casa, que é a crónica para a rádio. No “Sapo” vou direitinho à “Banca dos Jornais” e vejo as primeiras páginas (boa parte delas já as tinha visto antes de dormir, na SIC Noticias), leio o que me interessa (ou o que me deixam).Quando finalmente saio de casa, estou a par do que se passa no mundo. Dispenso, por isso, a maioria dos jornais gratuitos, porque não me dá mais do que já sei. E da imprensa diária, que por vício profissional ainda compro, leio apenas opinião e reportagem. Ah, e fofocas, que me divertem sempre...Não me interessam as noticias, porque já não são – foram noticias... E é aqui que eu paro.Todos os dias me interrogo sobre a imprensa diária, praticamente um euro por jornal, e o caminho que leva. Interrogo-me muitas vezes sobre os semanários, as revistas, ao preço de 3 ou 4 canções no I-tunes (e as canções ouvem-se tantas vezes...). Acho sinceramente que há um trabalho profundo de reflexão, análise e reacção por fazer nos media. Por agora, chuta-se para a frente com DVD’s, faqueiros, cursos de línguas e o mais que houver. Tapar o sol com a peneira e fazer de conta que aquela remodelação gráfica veio mesmo a calhar.Jornais sem marketing e ofertas, nem pensar. Claro que sim. Mas é melhor antecipar cenários e fazer a pergunta: para quê jornais (ou revistas), se são quase residuais os que os compram pelo produto em si? Se um jornal vale o dobro da sua venda por oferecer um DVD, não vale ele próprio metade do que aparenta? Que negócio é esse, então?É claro que quando leio o “El Pais”, o “Le Fígaro”, o “The Guardian”, reconheço-lhes uma consistência global, e uma ligação a um tipo de informação privilegiada, que lhes apara o golpe diário de um preço a pagar.Mas acho que o meio a que ainda sinto que pertenço não percebeu o beco onde está metido E como tem de aprender a voar para sair dele.

retirado do blog do autor:
http://pedroroloduarte.blogs.sapo.pt/26846.html
[imagem imprensa do dia] fonte: http://melhorqueprozac.blogs.sapo.pt

Na Linha Da Utopia [14.02.2008]

O mundo na mão. Que mão no mundo?

1. Há breves anos, quando apareceu um anúncio publicitário com o mundo numa mão, destacava-se o efeito da desproporção, como se realmente fosse possível ter o gigante mundo numa pequena mão humana. Para além da questão publicitária, alguns observadores viam nessa imagem fotográfica um sinal destes tempos, que nos fazem sentir o mundo sempre presente. Efectivamente assim acontece. Nunca os continentes, as comunidades e as pessoas estiverem tão próximos, nunca como hoje se conheceram tantos cantos e recantos deste planeta azul (às vezes cinzento), nunca, também, se observaram em simultâneo as misérias, os cataclismos, as venturas e desventuras da humanidade.

2. À ousadia de colocar o mundo numa mão, vai-se erguendo a ideia feita compromisso de colocar as “mãos na massa” do mundo concreto. Se todas as formas de comunicar trazem até nós as diversas realidades de mundo, cabe, consequentemente, quase como imperativo da responsabilidade, um continuado despertar envolvente cada vez mais na busca de soluções, práticas como eficazes. É esse o esforço a potenciar, multiplicar. Quando não, uma pequena parte do mundo estará à mesa num lauto banquete da abundância…a ver as imagens da gritante fome na televisão. Tão simples quanto isto. Escandaloso!

3. O deslumbrante encontro do “global” com o “particular” obriga a redimensionar tudo. Como manifesta muitas vezes o presidente da AMI (Assistência Médica Internacional), Fernando Nobre, é urgente gritar “contra a indiferença”, esta indiferença o pior dos males das chamadas sociedades de bem-estar. Até para as grandes instituições que se querem afirmar como significativas nos tempos de globalização, não há outra solução senão o procurar (re)conhecer o mundo e tê-lo sempre presente como horizonte, numa redescoberta local de soluções que se vão abrindo à universalidade, até ao mundo na “mão”!

4. O tempo do olhar para o umbigo dos “botões” passou. A época do apreciar e partilhar a diversidade local no mundo global está aí, afirmando-se como a via de enquadramento como diálogo dialéctico de todas as diversidades tão ricas neste mundo. Como sugere Jérôme Bindé, na introdução à obra “As Chaves do Século XXI” (Piaget, 2002: 13), «o séc. XXI não poderia ser reduzido a um monólogo, ainda que fosse o da tecnologia, e qualquer antecipação não pode ser, a nosso ver, senão uma “dialéctica” do futuro». Nesta base, e em busca de qualidade humana sempre crescente, será mais possível pôr no mundo a mão que não explore mas que seja o encontro ético de justas soluções. Muitas mãos ainda não vêm mais longe que os seus botões…

Alexandre Cruz [14.02.08]
[imagem mundo na mão] fonte: http://meuslivros.weblog.com.pt

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Diocese de Aveiro na TV [2ª parte]

A Diocese de Aveiro no Programa "Ecclesia" da RTP2

2ª PARTE

Este programa foi emitido na RTP2 no passado dia 13 de Fevereiro de 2008.













Diocese de Aveiro na TV [1ª parte]

A Diocese de Aveiro no Programa "Ecclesia" da RTP2

Este programa foi emitido na RTP2 no passado dia 12 de Fevereiro de 2008.













quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Na Linha Da Utopia [13.02.2008]

A autocrítica de “compreender”

1. Dos desafios mais importantes da vida será “compreender”. Compreender tudo o que acontece, nas suas várias faces de causas, factos e consequências. Mas para compreender é preciso criar a distância crítica necessária, colocar todos os dados em jogo, “joeirar”, para depois poder considerar de forma mais justa. Dos piores sintomas da falta de autocrítica será o ajuizar sem conhecer, o falar sobre algo sem saber minimamente, o optar sem se situar na pluralidade de caminhos. O focalizar e perder-se num “ponto” sem ler e entender todo um “texto” poderá ser esse sinal da falta de visão de conjunto que não procura compreender a totalidade.

2. Neste âmbito destacaríamos a obra de Maria Manuel Baptista sobre Eduardo Lourenço. O título é sugestivo: Eduardo Lourenço – A paixão de compreender (ASA, 2003). É a visão de um dos maiores pensadores portugueses actuais que estimula a todos realizarmos esse exercício insubstituível da prudência como caminho de sabedoria para nas horas presentes se ir descortinando o melhor futuro possível. Talvez o nosso tempo social não dedique o tempo necessário a este aprofundamento por “porquês” para melhor se ver os caminhos dos “para quês” como construção de ideais.

3. Perguntarmo-nos sobre “o que acontece” é ir às razões profundas e nessa origem procurarmos uma iluminação que desperte a esperança e o compromisso. Uma transversalidade de áreas precisam desta autocrítica que procura “compreender”, a começar por factos tão diários como a diminuição dos compromissos em casamentos (que compromete o futuro, até das natalidades) ou visões tão essenciais como as grandes questões da dignidade da vida humana que interpelam o modelo de sociedade e civilização (a andar para trás, enquanto o conhecimento científico anda para a frente!...).

4. Muitas destas questões têm andado como bandeiras daqui e dali, desta ou daquela “parte”, diluindo-se para o “todo” da sociedade a essência profunda das razões. Algumas intervenções procuram essa “descentralização”, mas os “ouvidos” das comunicações estão bloqueados… Talvez para algumas das argumentações pretenda-se, precisamente até, que as sociedades não tomem consciência do “tudo” que está em causa nessas causas fundamentais. Talvez a anemia do “não compreender” seja favorável como estratégia avançada de certas formas de ler a vida, para quem a liberdade na Verdade e Dignidade Humana pouco interessa. Este é o tempo da “síntese” e das razões profundas onde, mesmo sem estar na “moda”, para além dos pormenores, importa valorizar as causas que valham a pena e que possam unir. Não num mero sobreviver, mas numa vida com sentido. Autocrítica como cidadania do SER precisa-se!

Alexandre Cruz [13.02.08]
[imagem george grosz - pilares da sociedade (1926)] fonte: http://resistir.info

UM DADO SOCIAL PREOCUPANTE, CONCRETO E INTERPELADOR

As estatísticas oficiais dizem que, em Trás-os-Montes, região de forte tradição cristã e de grande fidelidade a costumes sociais e religiosos que vêm de longe, no ano que terminou os casamentos civis ultrapassaram os realizados no templo. Este era já um dado, desde há tempos verificado nos grandes meios urbanos, onde as raízes naturais das pessoas, abafadas pela massificação e pelo anonimato, se foram tornando mais débeis e com menor capacidade de referência vinculativa.
Sabemos que o número de casamentos na igreja diminui em todo o país e o mesmo foi acontecendo em relação aos casamentos civis. Aumentaram, sim, as uniões de facto, protegidas por politicas sociais, ideologias recentes e ambiente sem nervura, por vezes em detrimento das famílias que se formam segundo a Constituição Portuguesa e que são ainda a grande maioria das famílias portuguesas.
Porém, não é de estranhar que, aqui ou ali, se dê agora um novo surto de casamentos civis, dada a reacção pessoal a todas as formas de compromissos permanentes, às leis vigentes sobre o divórcio, ao enfraquecimento da censura social de outros tempos.
Casar e descasar passou a ser coisa fácil e rápida quando no horizonte de um casamento está mais presente a possibilidade de um divórcio que de um casamento estável. Casar neste contexto e apesar de tudo com alguma pompa, mesmo que seja só civil, até se torna aliciante.
Diz-se, com frequência que ainda persiste, que os noivos vão à igreja, não por motivos de fé, o que muitas vezes acontece, mas porque é mais bonito e as famílias e o ambiente social assim o exigem Agora vão mais ao registo civil, porque o rito já tem alguma solenidade, muitos conservadores se vêem obrigados a ceder, com desgosto, aos mais diversos gostos, o descasar se tornou muito fácil, as famílias deixaram de ter qualquer influência nas opções dos filhos e o ambiente sopra a favor. Assim se opta com a antecipada garantia de uma porta sempre aberta para poder passar a outra se se quiser e quando se quiser. Ser casado não obriga mais a grandes esforços. Acaba-se e pronto.
Onde está a solidez da vida em sociedade, da qual a família será sempre célula viva ou morta, o valor dos compromissos pessoais e dos compromissos assumidos de modo público, a dimensão moral dos valores da vida e das pessoas, a garantia, não apenas legal, que também esta é pouca, dos direitos fundamentais dos filhos, onde a seriedade de quem deve ter princípios a reger a vida, se quer que a esta se chame vida?
Será que o livro aberto das muitas misérias humanas e familiares, cada vez mais graves e elucidativas, não é lido por ninguém com responsabilidades no Estado, na Igreja, na comunicação social, no mundo dos tempos livres, nas legisladores que mais olham para si, dos que fazem de muitas crianças, filhas de pais desavindos, bolas de pingue-pongue, jogadas na mesa da irresponsabilidade paternal e social? Será que na procura da realização meramente pessoal já se dispensam regras que geram compromissos, laços morais que traduzem dignidade, vinculação concreta à sociedade, da qual parece que apenas se querem os favores?
Será que andam cegos os jovens ao pensarem em casar só vêem as mais legitimas condições materiais e não pensam que casar é um passo sério e cheio de consequências irreversíveis nas suas vidas e nas vidas de outros que deles passam a depender?Respeitar as opções pessoais de casar na igreja, no civil ou em parte nenhuma, não impede que se diga que se trata de um acto público fundamental que nos afecta a todos. A sociedade destrói-se não apenas pelas agressões ao ambiente, mas também pela destruição dos laços e dos vínculos que a tecem e lhe dão solidez.


António Marcelino, Bispo emérito de Aveiro
[imagem alianças de casamento] fonte: http://arrastao.weblog.com.pt

Na Linha Da Utopia [12.02.2008]

Despesa versus Investimento

1. Estas duas palavras, despesa e investimento, conjugam muita da tensão entre duas concepções distintas, em que o meio será a virtude. Considerar como “despesa” áreas fundamentais da sociedade que poderão ser alavancas do futuro é fica-se pelo meio do caminho. Normalmente, as (continuadas) épocas do aperto económico são muito mais amigas da palavra “despesa”, dessa forma fechando as portas daquilo que pode ser raiz de novas soluções. Em conformidade, pouca margem é dada a uma concepção de “investimento”, considerando-se, precipitadamente, o “rigor” inimigo das apostas essenciais no futuro.

2. Não é fácil, a não ser na teoria, a conjugação funcional destes factores eixo do desenvolvimento dos povos. Exigirá o saber-se caminhar numa fronteira de difícil discernimento, mas em que a envolvência participativa de todos os agentes dessa determinada área muito poderão colaborar no encontrar das melhores soluções no terreno. Não é nada de novo o dizer-se que todas as despesas nas áreas fulcrais da saúde, educação, acção social e justiça devem ser mudadas de nome, sendo designadas como investimentos para uma sociedade mais humana e justa para todos. Umas a montante outras a jusante.

3. Não há comunidade social que se segure muito tempo centrada só no por as contas em dia, sem olhar a meios para atingir esses fins. Esta óptica numérica sempre cegou lendo tudo como despesa e desumanizando as pessoas e as relações, deitando a perder as motivações em valores e ideais comuns, algo que caracteriza os humanos nas sociedades livres democráticas. E se os grandes investimentos são projectados em grandes obras ou acontecimentos continuam-se a adiar, para além da “cosmética”, os grandes investimentos no maior tesouro das sociedades, as pessoas. Vão sendo muitas as afirmações de um mau estar social, de uma multidão de juventude sem “lugar”, a par de continuadas denúncias de corrupções numa justiça que tem o seu ritmo…

4. O terreno está difícil. Frutifica o que se deveria apagar e não floresce o que seria imperioso reinar. Como não dá frutos numéricos imediatos, (nada de novo) continua a não haver lugar de explícito insubstituível (transversal e específico) para uma formação humana sensibilizadora para os valores fundamentais da comunidade (nacional, europeia e global). Queremos colher os frutos sem termos o generoso cuidado de investir na sementeira. Eis um dos dramas das sociedades que crescem nas “coisas” mas vão ficando pobres de horizontes de ser-sentir-pensar-esperar. Felizmente, parece que em termos de educação artística e formação musical algo estará em processo de realização. Assim seja, de forma envolvente com todos, aberta, transversal…(?). Aprender música é saber matemática!

Alexandre Cruz [12.02.08]
[imagem Crianças na escola ] fonte: http://www.santoandre.sp.gov.br

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Na Linha Da Utopia [11.02.2008]

Não é “mais um” doente

1. Celebrar-se o Dia Mundial do Doente a 11 de Fevereiro de cada ano, é oportunidade para reflectirmos sobre esta sensível realidade. Doentes todos já o fomos, somos ou seremos. É por isso que sempre teremos de falar na primeira pessoa e com tal sensibilidade que de pouco valem as frases feitas, decoradas ou as receitas pré-elaboradas. O facto de cada pessoa ser um mundo aplica-se de forma explícita neste terreno da limitada condição humana. Falar de doença ou sofrimento, mais que teorias, será falar de pessoas doentes, em que todo o aconchego colaborante será bem-vindo ao necessário alívio possível e conforto em horas e dias tão difíceis.

2. Não pretendemos falar dos cuidados paliativos, das receitas clínicas, de toda a gama diversificada dos cuidados de saúde. Interessa-nos compreender o que está antes e que dá razão de ser às comunidades hospitalares ou a uma sociedade que deve colocar os mais frágeis no centro das suas preocupações. O modo como compreendemos, cooperamos e agimos para com as pessoas doentes (estamos sempre na primeira pessoa) será o modelo de sociedade que procuramos como ideal. E neste patamar, todas as ajudas serão bem vindas, da ordem das dores físicas até à ordem da paz de espírito. Não compreender isto será desfocar não servindo a Pessoa.

3. Se todas as políticas sempre terão de colocar as pessoas acima de tudo, então em quadrantes como a saúde esse centro de referência merecerá a máxima atenção, em área onde cada momento de tempo, sempre único, pode ser fatal. Talvez na vida das sociedades esta seja mesmo uma da áreas mais sensíveis onde, pelo cuidado minuncioso, não pudesse haver ninguém que trabalhasse na saúde por qualquer outro interesse que não fosse uma clara VOCAÇÃO de serviço às pessoas na sua condição de fragilidade. A este respeito, os tempos parecem difíceis. Sem pretendermos generalizar, muitos negócios da saúde são escandalosos; ainda há dias falava-se dos milhões dos transplantes (Visão, 7 Fev.).

4. Felizmente que hoje vai sendo caminho aberto das comunidades hospitalares o saber-se acolher todas as ajudas que, no respeito pela livre consciência, podem garantir serenidade exterior e interior às pessoas doentes. Afinal, que outra função dos estados senão o garantir e mesmo promover este terreno de liberdade? As comunidades hospitalares, acolhedoras do pluralismo dos seus utentes (que são acima de tudo) PESSOAS, assim, abrem-se à totalidade da humanidade daqueles que lá passam os “momentos” da sensibilizada fronteira do sofrimento. Nessa hora, venha toda a força, toda a paz, toda a sensibilidade, toda a presença, todas as palavras mesmo que no silêncio!

Alexandre Cruz [11.02.08]
[imagem Visita a doente] fonte: http://www.fotosearch.com.br

Na Linha Da Utopia [10.02.2008]

A juventude da Parvónia

1. Mesmo após a polémica, tudo continua na mesma. E a certa altura já nem se sabe como reagir ao mau gosto que vai crescendo de forma desmedida. O assunto é a campanha, diga-se sem jeito nem inteligência, da “parvónia” chamada Media Markt. A conclusão da história publicitada, após um arranjo que leva ao ridículo um chefe militar e um escuteiro, é que quem é “parvo” é que não vai ao Media Markt. Enfim, para além da pobreza da qualidade do anúncio, já há muita gente a dizer precisamente o contrário…

2. O ditado diz que «quem não sente não é filho de boa gente». Sabemos como são as coisas. Entre o silêncio do não ligar ao assunto (esta a receita dos tempos indiferentes), ou a coragem de dar uma “pedrada no charco”, correndo o perigo das múltiplas interpretações, até de exagero, a Junta Central do CNE emitiu um comunicado, apelando ao bom senso ético. O parvo anúncio coloca o jovem escuteiro oriundo, emigrado (imigrante?), do país Parvónia no cenário mais ridículo…

3. Após o corajoso comunicado da Junta Central (sabendo que correria o perigo das análises habitualmente passivas de “estar a dar importância demasiada ao assunto”), CNE que neste país pela “escola de vida” do Escutismo procura realizar um ideal de trabalho sério com mais 70 mil jovens portugueses, a resposta do Media Markt (do seu country manager!), aliviando a coisa, não deixa de nos dar dois sinais: 1º, que a aparvalhada figura do escuteiro pretendia «representar a juventude» portuguesa; 2º, que só os escuteiros ficaram ofendidos, pois «nenhuma associação de militares nos contactou» (bom, o papel do militar não desce à figura do jovem).

4. O que vale é que os jovens já se estão pouco importando com o que deles dizem, senão!... Indiferentes, no “porreirismo” do deixa andar que vão copiando pelas referências sociais, já comem tudo… É de saudar a Junta Central do CNE, que fala em nome das instituições se viram, vêem ou verão, expostos a um ridículo anestesiador dos padrões de dignidade e qualidade de uma sociedade. Quem sabe esta (ex)posição do CNE tenha sido um contributo para os próximos anúncios que, para garantir a polémica que vende, colocariam figuras de estado nessa parvónia…(Talvez aí a coisa mudasse!) E depois queixamo-nos dos medos do futuro!

Alexandre Cruz [10.02.08]
[imagem Baden Powell ] fonte: www.cne-escutismo.pt
Lilypie First Birthday tickers Lilypie