quinta-feira, outubro 28, 2010

Padres ou empreiteiros?

O título desta crónica leva-nos para o universo da caricatura mas serve apenas para aguçar o desejo de reflectir um pouco sobre um recente alerta de D. Jorge Ortiga aos seus padres, aos pastores do Baixo Minho.

Quantas vezes as pessoas limitam o juízo que fazem de um pároco com a Expressão: ele é muito dinâmico, ampliou a Igreja, construiu o Centro Social e o adro está bonito.

É a imagem do padre empreiteiro que seduziu muitos membros do clero das nossas aldeias. Fazem-me às vezes lembrar alguns presidentes dos Bombeiros Voluntários que só descansam quando construirem um novo quartel maior que o da corporação vizinha ou as comissões de festas que querem um conjunto mais caro que o da festa vizinha.

Não podemos ignorar que é de primordial importância revitalizar os movimentos para respostas concretas. .. porque não devemos ficar a olhar para o céu de braços cruzados perante a pobreza dos irmãos.

Uma paróquia sem uma dimensão social não pode considerar a sua missão completa e de tanto se insistir nesta maxima, desatamos todos numa correria à construção de equipamentos que traduzissem a prática da caridade cristã, de forma concreta, com as famílias pobres.

A preocupação com qualidade exigida pelo Estado, para dar a sua esmola, endeusou o profissionalismo e muitos sacerdotes tornaram-se profissionais qualificados no acompanhamento de obras e na gestão económica e financeira de equipamentos.

Transformaram a assistência evangélica numa técnica tanto mais aperfeiçoada quanto diminuía a disponibilidade psicológica, escasseavam o tempo e as forces para que os padres fossem verdadeiramente pastores.

Face ao alargamento da acção social do Estado — como é sua missão constitucional —, pairam agora tantas dúvidas sobre tantos investimentos e tantos sacrifícios feitos e desperdiçados.

Por isso, consideramos pertinentíssimas as dúvidas que o Arcebispo de Braga colocava aos seus padres, a começar pela necessidade de todos os equipamentos existentes e outros novos em projecto.

Há que pensar bem — e devem ser os párocos a fazê-lo nos encargos assumidos - nos empréstimos bancários para a construção — que podem lançar na falência as comunidades cristãs?

D. Jorge interroga-se mesmo — face ao futuro difícil que aí vem — se deve continuar a assinar Cartas de Conforto ou autorização para hipotecas com encargos para diversos anos.

A opção está nas construções faraónicas ou em centros de dia e num voluntariado responsável? Esta pergunta de D. Jorge não deve desmotivar os padres das nossas aldeias, mas deve gerar uma reflexão a partir “duma certa originalidade diferente que as Instituições da Igreja devem possuir”


autor: Costa Guimarães [ http://correiodominho.pt/cronicas.php?id=2095 ]

quarta-feira, outubro 27, 2010

terça-feira, outubro 26, 2010

Um segredo de um casamento feliz

Deixo-vos aqui uma preciosidade redigida pelo fantástico Miguel Esteves Cardoso. É um dos melhores textos que alguma vez li sobre um casamento feliz. E digo-vos que já li muita coisa sobre o tema ... quem me conhece sabe que é verdade!
Enfim, coisas da vida ...

Crónica: Um segredo de um casamento feliz

25.10.2010 - 10:45 Por Miguel Esteves Cardoso

Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.

Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.

O casamento feliz não é nem um contrato nem uma relação. Relações temos nós com toda a gente. É uma criação. É criado por duas pessoas que se amam.

O nosso casamento é um filho. É um filho inteiramente dependente de nós. Se nós nos separarmos, ele morre. Mas não deixa de ser uma terceira entidade.

Quando esse filho é amado por ambos os casados - que cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro. Têm também de amar o casamento que criaram.

O nosso casamento é uma cultura secreta de hábitos, métodos e sistemas de comunicação. Todos foram criados do zero, a partir do material do eu e do tu originais.

Foram concordados, são desenvolvidos, são revistos, são alterados, esquecidos e discutidos. Mas um casamento feliz com dez anos, tal como um filho de dez anos, tem uma personalidade mais rica e mais bem sustentada, expressa e divertida do que um bebé com um ano de idade.

Eu só vivo desta maneira - que é o nosso casamento - vivendo com a Maria João, da maneira como estamos um com o outro, casados. Nada é exportável. Não há bocados do nosso casamento que eu possa levar comigo, caso ele acabe.

O casamento é um filho carente que dá mais prazer do que trabalho. Dá-se de comer ao bebé mas, felizmente, o organismo do bebé é que faz o trabalho dificílimo, embora automático, de converter essa comida em saúde e crescimento.

Também o casamento precisa de ser alimentado mas faz sozinho o aproveitamento do que lhe damos. Às vezes adoece e tem de ser tratado com cuidados especiais. Às vezes os casamentos têm de ir às urgências. Mas quanto mais crescem, menos emergências há e melhor sabemos lidar com elas.

Se calhar, os casais apaixonados que têm filhos também ganhariam em pensar no primeiro filho que têm como sendo o segundo. O filho mais velho é o casamento deles. É irmão mais velho do que nasce e ajuda a tratar dele. O bebé idealmente é amado e cuidado pela mãe, pelo pai e pelo casamento feliz dos pais.

Se o primeiro filho que nasce é considerado o primeiro, pode apagar o casamento ou substitui-lo. Os pais jovens - os homens e as mulheres - têm de tomar conta de ambos os filhos. Se a mãe está a tratar do filho em carne e osso, o pai, em vez de queixar-se da falta de atenção, deve tratar do mais velho: do casamento deles, mantendo-o romântico e atencioso.

Ao contrário dos outros filhos, o primeiro nunca sai de casa, está sempre lá. Vale a pena tratar dele. Em contrapartida, ao contrário dos outros filhos, desaparece para sempre com a maior das facilidades e as mais pequenas desatenções. O casamento feliz faz parte da família e faz bem a todos os que também fazem parte dela.

Os livros que li dão a ideia de que os casamentos felizes dão muito trabalho. Mas se dão muito trabalho como é que podem ser felizes? Os livros que li vêem o casamento como uma relação entre duas pessoas em que ambas transigem e transaccionam para continuarem juntas sem serem infelizes. Que grande chatice!

Quando vemos o trabalho que os filhos pequenos dão aos pais, parece-nos muito e mal pago, porque não estamos a receber nada em troca. Só vemos a despesa: o miúdo aos berros e a mãe aflita, a desfazer-se em mimos.

É a mesma coisa com os casamentos felizes. Os pais felizes reconhecem o trabalho que os filhos dão mas, regra geral, acham que vale a pena. Isto é, que ficaram a ganhar, por muito que tenham perdido. O que recebem do filho compensa o que lhe deram. E mais: também pensam que fizeram bem ao filho. Sacrificam-se mas sentem-se recompensados.Num casamento feliz, cada um pensa que tem mais a perder do que o outro, caso o casamento desapareça. Sente que, se isso acontecer, fica sem nada. É do amor. Só perdeu o casamento deles, que eles criaram, mas sente que perdeu tudo: ela, o casamento deles e ele próprio, por já não se reconhecer sozinho, por já não saber quem é - ou querer estar com essa pessoa que ele é.

Se o casamento for pensado e vivido como uma troca vantajosa - tu dás-me isto e eu dou-te aquilo e ambos ficamos melhores do que se estivéssemos sozinhos -, até pode ser feliz, mas não é um casamento de amor.

Quando se ama, não se consegue pensar assim. E agora vem a parte em que se percebe que estes conselhos de nada valem - porque quando se ama e se é amado, é fácil ser-se feliz. É uma sorte estar-se casado com a pessoa que se ama, mesmo que ela não nos ame.

Ouvir um casado feliz a falar dos segredos de um casamento feliz é como ouvir um bilionário a explicar como é que se deve tomar conta de uma frota de aviões particulares - quantos e quais se devem comprar e quais as garrafas que se deve ter no bar, para agradar aos convidados.

Dirijo-me então às únicas pessoas que poderão aproveitar os meus conselhos: homens apaixonados pelas mulheres com quem estão casados.

E às mulheres apaixonadas pelos homens com quem estão casadas? Não tenho nada a dizer. Até porque a minha mulher continua a ser um mistério para mim. É um mistério que adoro, mas constitui uma ignorância especulativa quase total.

Assim chego ao primeiro conselho: os homens são homens e as mulheres são mulheres. A mulher pode ser muito amiga, mas não é um gajo. O marido pode ser muito amigo, mas não é uma amiga.

Nos livros profissionais, dizem que a única grande diferença entre homens e mulheres é a maneira como "lidam com o conflito": os homens evitam mais do que as mulheres. Fogem. Recolhem-se, preferem ficar calados.

Por acaso é verdade. Os livros podem ser da treta mas os homens são mais fugidios.

Em vez de lutar contra isso, o marido deve ceder a essa cobardia e recolher-se sempre que a discussão der para o torto. Não pode ser é de repente. Tem de discutir (dizê-las e ouvi-las) um bocadinho antes de fugir.

Não pode é sair de casa ou ir ter com outra pessoa. Deve ficar sozinho, calado, a fumegar e a sofrer. Ele prende-se ali para não dizer coisas más.

As más coisas ditas não se podem desdizer. Ficam ditas. São inesquecíveis. Ou, pior ainda, de se repetirem tanto, banalizam-se. Perdem força e, com essa força, perde-se muito mais.

As zangas passam porque são substituídas pela saudade. No momento da zanga, a solidão protege-nos de nós mesmos e das nossas mulheres. Mas pouco - ou muito - depois, a saudade e a solidão tornam-se insuportáveis e zangamo-nos com a própria zanga. Dantes estávamos apenas magoados. Agora continuamos magoados mas também estamos um bocadinho arrependidos e esperamos que ela também esteja um bocadinho.

Nunca podemos esconder os nossos sentimentos mas podemos esconder-nos até poder mostrá-los com gentileza e mágoa que queira mimo e não proclamação.

Consiste este segredo em esperar que o nosso amor por ela nos puxe e nos conduza. A tempestade passa, fica o orgulho mas, mesmo com o orgulho, lá aparece a saudade e a vontade de estar com ela e, sobretudo, empurrador, o tamanho do amor que lhe temos comparado com as dimensões tacanhas daquela raivinha ou mágoa. Ou comparando o que ganhamos em permanecer ali sozinhos com o que perdemos por não estar com ela.

Mas não se pode condescender ou disfarçar. Para haver respeito, temos de nos fazer respeitar. Tem de ficar tudo dito, exprimido com o devido amuo de parte a parte, até se tornar na conversa abençoada acerca de quem é que gosta menos do outro.Há conflitos irresolúveis que chegam para ginasticar qualquer casal apaixonado sem ter de inventar outros. Assim como o primeiro dever do médico é não fazer mal ao doente, o primeiro cuidado de um casamento feliz é não inventar e acrescentar conflitos desnecessários.

No dia-a-dia, é preciso haver arenas designadas onde possamos marrar uns com os outros à vontade. No nosso caso, é a cozinha. Discutimos cada garfo, cada pitada de sal, cada lugar no frigorífico com desabrida selvajaria.

Carregamos a cozinha de significados substituídos - violentos mas saudáveis e, com um bocadinho de boa vontade, irreconhecíveis. Não sabemos o que representam as cores dos pratos nas discussões que desencadeiam. Alguma coisa má - competitiva, agressiva - há-de ser. Poderíamos saber, se nos déssemos ao trabalho, mas preferimos assim.

A cozinha está encarregada de representar os nossos conflitos profundos, permanentes e, se calhar, irresolúveis. Não interessa. Ela fornece-nos uma solução superficial e temporária - mas altamente satisfatória e renovável. Passando a porta da cozinha para irmos jantar, é como se o diabo tivesse ficado lá dentro.

Outro coliseu de carnificina autorizada, que mesmo os casais que não podem um com o outro têm prazer em frequentar, é o automóvel. Aí representamos, através da comodidade dos mapas e das estradas mesmo ali aos nossos pés, as nossas brigas primais acerca das nossas autonomias, direcções e autoridades para tomar decisões que nos afectam aos dois, blá blá blá.

Vendo bem, os casamentos felizes são muito mais dramáticos, violentos, divertidos e surpreendentes do que os infelizes. Nos casamentos infelizes é que pode haver, mantidas inteligentemente as distâncias, paz e sossego no lar.

in http://www.publico.pt/Sociedade/cronica-um-segredo-de-um-casamento-feliz_1462647?all=1

terça-feira, outubro 19, 2010

Anedota da semana ... fantástica


Diz o Primeiro-Ministro Sócrates para a Secretária:"Vou atirar esta nota de 100 Euros pela janela e fazer um português feliz."
"Sr. Engº, não acha preferível atirar 2 de 50 e fazer 2 portugueses felizes?" - diz a Secretária.
"Não faça isso, Sr. Primeiro-Ministro. Atire 20 notas de 5 e faça 20 portugueses felizes!" - diz o Escriturário lá no seu canto.
Ouvindo isto tudo, reage a senhora de limpeza:"Porque é que o senhor Primeiro-ministro não se atira da janela e faz dez milhões de portugueses felizes?"

sexta-feira, outubro 15, 2010

Anedota da semana ... fantástica


Um homem, voando num balão, dá conta que está perdido. Avista um homem no chão, baixa o balão e aproxima-se:

- Pode ajudar-me? Fiquei de encontrar-me com um amigo às duas da tarde; já tenho um atraso de mais de meia hora e não sei onde estou...
- Claro que sim! - responde o homem: O senhor está num balão, a uns 20 metros de altura, algures entre as latitudes de 40 e 43 graus Norte e as longitudes de 7 e 9 graus Oeste.
- É consultor, não é?
- Sou sim senhor! Como foi que adivinhou?
- Muito fácil: deu-me uma informação tecnicamente correcta, mas inútil na prática. Continuo perdido e vou chegar tarde ao encontro porque não sei o que fazer com a sua informação...
- Ah! Então o senhor é socialista!
- Sou! Como descobriu?
- Muito fácil: O senhor não sabe onde está, nem para onde ir, assumiu um compromisso que não pode cumprir e está à espera que alguém lhe resolva o problema. Com efeito, está exactamente na mesma situação em que estava antes de me encontrar. Só que agora, por uma estranha razão, a culpa é minha!...

quinta-feira, outubro 14, 2010

Mais um prego no caixão

Ora vamos lá ver uma coisa! Acham normal num país que defende que a taxa de iliteracia e cultural é baixa, que solta brados aos sete ventos que aposta forte na educação, vir agora, em nome de uma suposta medida orçamental para redução do déficit, aumentar o custo dos livros em 17%?
Se calhar, tendo em conta o grau de exigência nos pro
gramas das novas oportunidades, até entendemos esta medida! Enfim, isto a cada dia que passa, estamos a cavar a nossa própria sepultura.
Enfim, coisas da vida (muito tristes por sinal) ...