quarta-feira, janeiro 30, 2008

Na Linha Da Utopia [29.01.2008]

Cultura como desenvolvimento

1. São muitas as teorias e ideias sobre a cultura, mas na realidade as propostas de cultura apresentam-se sempre como um esforço repleto de fronteiras e incertezas. Como criar dinâmicas de tal forma interessantes e estimulantes em que as liberdades, o passado, presente e futuro, se juntem a celebrar a cultura e a vida? É a pergunta que percorre o tempo da história na expectativa de uma vivência cultural de tal forma intensa como se quase não precisássemos de apelar à cultura (cívica) da participação.

2. As coordenadas do tempo (passado, presente e futuro) não podem estar fora desse palco cultural. A própria visão cultural não pode ser em círculo fechado. Um horizonte cultural rasgado colocará no mapa da vida das sociedades a cultura no primeiro plano e não do último, como se de um acessório se tratasse. É também aqui, sem saudosismos mas como factor de “pertença”, que os séculos que nos precederam terão sabido erguer um património artístico e cultural ligado umbilicalmente à vida das gentes, numa convivência natural enraizada de tal forma que os laços de geração em geração conseguiram passar essas “tradições”. Algumas admiráveis, outras, como sabemos, nem tanto.

3. Às perguntas essenciais sobre o lugar da cultura no futuro das sociedades, poderemos responder com o que pensarão aqueles que serão o “amanhã” (os jovens de hoje) sobre o assunto. Há dias um professor especializado nestas áreas dizia que de forma crescente os jovens respondem ao jeito dos “links” (ficheiros, sectores) do computador, faltando uma visão de unidade geral de toda a informação que se “descarrega”. Nestas visões crescentes “espartilhadas” que lugar para a cultura, como elo de unidade do que somos com tudo o que antes de nós foi caminho humano? Haverá futuro sem consciência do passado?

4. É neste sentido que a cultura em Portugal terá de deixar de ser um acessório num palco de cumprir calendários. Talvez deva ser vista como factor essencial de desenvolvimento social. As gentes precisam de se sentir identificadas com as suas raízes para redescobrir as dinâmicas de participação comunitária. Quanto mais existir esse reconhecimento da “tradição” (mesmo folclórica, de bandas de música, colectividades que fazem continuamente um trabalho heróico), tanto mais haverá aptidão e curiosidade no apreço do fascinante futuro. Talvez esse “elo de unidade” possa reerguer a cultura portuguesa como factor de desenvolvimento humano e social. Mais (mais aberto) e melhor!

Alexandre Cruz [29.01.2008]
[imagem Logotipo Cultura Viva - fundação Paulo Freire] fonte: http://www.paulofreire.org/

terça-feira, janeiro 29, 2008

Eu é que não sou parvo !

Foi com enorme tristeza que recebi um email de um amigo, por sinal escuteiro como eu, a chamar a atenção para uma publicidade da cadeia MediaMarkt, no mínimo de muito mau gosto. Por mim podem ter a certeza que perderam um cliente, nem que fossem a última loja de electrodomésticos e afins à face da terra.

Fico chocado como é que se consegue "brincar" e "gozar" com uma instituição que muito tem dado aos adolescentes e jovens de todo o mundo.

EU É QUE NÃO SOU PARVO!



Enfim, coisas da vida ...




(deixo-vos também o post de um blog que costumo frequentar)






Para ganhar dinheiro não vale tudo.

Deixem de ir à Media Markt. Podemos ir à concorrência.

Estive a ver o
site. Como é possível?!!!
Não é ético que chamem parvos 100.000 escuteiros. São pelo menos 100.001 clientes que vão perder. Pelo menos eu nunca irei comprar lá nada.
Não admito que chamem parvos, a tantas crianças e jovens que trabalham no Escutismo .Não admito que chamem parvos adultos , que dão muito de si e do seu tempo para que o Mundo seja melhor.Não admito que se promovam com esta acusação gratuitaQue ganhem dinheiro á custa da maledicência!Quem não se sente....Procurem desmobilizar os vossos amigos para deixarem de lá comprar, pois para fazer Negócio , não vale tudo !

Passarei a ir a estabelecimentos concorrentes, que para servirem um cliente, não precisam de espezinhar ninguém!

(retirado do blog http://www.padre-inquieto.blogspot.com/)

Na Linha Da Utopia [28.01.2008]

O mal necessário?

1. Um rasto continua da recente crise de um grande banco português: infelizmente, a desconfiança é um contra-valor que tem lugar cativo. No antes, no durante a gestão do processo, e nos “depois” que parecem sempre indecisos na neblina da dúvida. Neste caso, pouco interessam os nomes e as coisas concretas; interessa bem mais compreender esta postura que depois traz para a casuística das situações uma mentalidade aprisionada pouco liberta/libertadora.

2. Mais ainda, dir-se-á que os apelos reclamantes do “outro lado” da moeda têm sido de contínua solicitação de mais inspecções, mais investigações, mais “judiciarismo”, como se à partida não acreditássemos que será possível fazer-se um caminho na confiança da liberdade responsável. De forças partidárias que há tempos reclamavam a distribuição de lugares, até à sempre recorrida justiça inspeccionadora, a que se pode juntar a realidade e os frutos da própria autoridade de inspecção alimentar, será que precisamos sempre de um “polícia” para ser feito o bem necessário? Perguntar é procurar razões…

3. Mesmo sem os pessimismos, afinal, pelos séculos fora, o que fez do chico-espertismo do escape ao sistema uma verdadeira autoridade silenciosa minadora do rigor da liberdade? O que trouxe para alguma da mentalidade uma certa necessidade de haver sempre quem inspeccione para obter uma perfeição crescente? Porque diante de situações de demonstrada corrupção a primeira palavra de ordem é o reclamar da justiça penitenciária em vez de “vamos mudar a mentalidade” estabelecendo naturalmente a justiça como valor positivo e não meramente numa óptica criminal?... Perguntas todas e muitas mais bem antigas.

4. Uma pedagogia das minunciosas e sensíveis responsabilidades pela positiva está sempre a ver se vem à tona da água. Felizmente, em tantos quadrantes sociais ela vai aperfeiçoando o seu percurso renovador sem uma necessidade inspeccionadora; noutras ainda se prefere a lógica vigilante à aceitação livre das mudanças boas para cada um e para todos. Outros séculos foram propostas à sociedade formas pedagógicas e mesmo novelísticas de afirmar as vantagens da prática da justiça. Uma cultura diária pela positiva virá destronar a sensação do “mal necessário” de que, inseguros, precisamos cada vez mais e mais de inspecções para tudo… Qual “big brother”?! Enquanto for assim, continuamos longe; a mentalidade de fazer todo o bem pelo bem, como serviço, será o sinal do tempo novo.

Alexandre Cruz [28.01.2008]

[imagem logotipo do Big Brother da TV] fonte: http://www.endemol.com

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Na Linha Da Utopia [27.01.2008]

Aprender a rezar…

1. Gonçalo M. Tavares esteve recentemente em Aveiro, na Livraria dos Serviços de Acção Social da Universidade, a apresentar o seu último romance «Aprender a rezar na era da técnica». Autor já de renome no panorama literário internacional, oriundo das terras de Aveiro, foi com gosto e curiosidade que sua “aula” foi apreendida. Possuidor de um imaginário de interpretação plural, como gosta de sublinhar, nele vão sendo enfrentadas, especialmente na forma romanceada, algumas das grandes questões do (nosso) tempo. Neste romance, posterior ao «Jerusalém», entra em cena a medicina, a política, o poder, a doença, os conflitos de família, a cidade, o crime, a força, a tecnologia, a natureza, a fraqueza, a decadência. O que é a realidade das pessoas, das relações e sociedades senão toda a conjugação sempre incerta destes factores?

2. De suas próprias palavras, somos transportados para um imaginário que se propõe reinterpretar a condição humana neste novo tempo e na relação com as “coisas” tecnológicas que estão continuamente ao nosso redor. Diríamos que elas quase que nos vão “formatando”. Simultaneamente, a inquietude surpreendente de “como” e “se” as reflexões mais ancestrais (da oração, meditação, espiritualidade) conseguem resistir a toda a envolvência técnica condicionante dos humanos (?). Eis uma questão de fundo que toca o “simbólico” da existência de sermos pessoas, onde o sentimento, a emoção, poesia nos transportam para patamares acima da ordem do “exacto”, que afinal é sempre relativo. O título da obra desperta para a compatibilidade entre duas esferas que não são contraditórias, antes pertencem à totalidade da experiência humana: o “rezar” e a “técnica”, e espírito (invisível) e a matéria (tocável).

3. Segundo múltiplos comentários, é dito que «Aprender a rezar na era da técnica» mantém o olhar sombrio sobre a condição humana. Não seguimos essa interpretação. Nada de sombrio quando se “procura”. Pelo contrário, o não interrogar, o não arriscar, o não tentar conjugar contemporâneo da pluralidade (rezar + técnica) é o que surge como mais sombrio. Talvez do título o verbo “aprender” nos coloque, verdadeiramente, em caminho. No fundo, nas fronteiras da procura do sentido, espelhadas em todas as metáforas que criam proximidades com o indizível, todas as indiferenças esbatem-se e os próprios agnosticismos ou ateísmos perdem a sua “razão”… Talvez, tantas vezes, o pior de tudo seja uma questão de linguagem desalinhada… Enquanto formos humanos continuaremos a procurar uma unidade existencial entre o que “sentimos” e as “coisas” que usamos. Afinal, “rezar”, na essência, significa esse “diálogo” (sempre criativo) da intemporalidade humana. Tão diferente de palavras clonadas... É bom “aprender” da dinâmica (cerebral) aberta a Todo o diálogo de todas as coisas.

Alexandre Cruz [27.01.2008]
[imagem capa do livro ] fonte: http://www.webboom.pt/

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Na Linha Da Utopia [24.01.2008]

O recuo da liberdade

1. Claro está que a liberdade não recua por si pois é sempre sinal de “relação”, e não se dizer esta afirmação sem a sua devida comprovação. A tese é demonstrada por factos concretos no relatório anual da Freedom House, sobre a situação da liberdade e democracia no mundo. Esta entidade foi fundada há 60 anos por Eleanor Roosevelt, a par de outros membros, no aprofundamento dos inúmeros tratados de paz e da democracia. Este relatório começa com a ideia de que «o ano de 2007 foi marcado por um recuo assinalável da liberdade global» (Público, 23 Janeiro). Nomeando países e situações concretas, dando especial destaque à Rússia e à China, o relatório chega à conclusão de que é a primeira vez que nos últimos 15 anos se verifica o segundo ano consecutivo de perca nos índices da liberdade global.

2. Desde a liberdade de imprensa às novas tecnologias da comunicação, das situações mais variadas na sociedade civil às corrupções de estados, o estudo elaborado mostra-nos as tendências do futuro da liberdade. Como sabemos, após a queda do muro de Berlim (1989) pensava-se que, corrigidas as fronteiras do liberalismo económico, entraríamos finalmente numa era global de desenvolvimento justo e pacífico em que a liberdade e a democracia, propostos como valores ocidentais, teriam a sua abertura exponencial a todo o planeta. Tal facto não se concretizou, havendo hoje claramente retrocessos que questionam os modelos futuros, provindo uma fatia desta perca de credibilidade democrática dos simbólicos unilateralismos da última (quase) década norte americana.

3. A conclusão, parece, vai-se tornando clara. Com o emergir em força fulgurante dos impérios orientais da China (com Japão e Índia), os designados valores do Ocidente que se pensava virem a ser hegemónicos, vão perdendo a força capaz de modelar a globalização em curso. Vai sendo um facto de “perda” que também se pode observar no emergir de novas autoridades (e mesmo autoritarismos) diante da indiferença democrática em libertinagem… Que força de impressão sócio-política virão a ter no mundo os paradigmas orientais (na sua visão do trabalho, da sociedade, da pessoa e dignidade humana)? Eis a questão do futuro! Nesse novo cenário é…por um lado, uma riqueza pois temos sempre tanto a aprender dos outros; por outro lado, a (dúvida) certeza que começa mesmo a revestir-se de significado essencial o sabermos que “identidade” de valores assumimos como referenciais comuns. As obras sobre as raízes do ocidente continuam a proliferar; na encruzilhada, saberemos melhor para onde vamos!

Alexandre Cruz [24.01.2008]
[imagem Logotipo da Freedom House] fonte: http://www.freedomhouse.org

Na Linha Da Utopia [23.01.2008]

E os petiscos regionais?

1. Naturalmente que nada está em causa numa intervenção que procura melhorar as condições de higiene e de qualidade alimentar. Essa garantia de protecção da saúde é sempre bem-vinda, no esforço da melhoria de um serviço para o bem de todos, evitando os maus hábitos do típico improviso português, também à mesa. Mas que essa intervenção oriente para uma uniformidade de procedimentos à mesa é algo que deita a perder séculos de riquezas regionais tão enaltecedoras da nossa história e tradição. Haverá uma fronteira, sempre a discernir, entre uma qualidade necessária a garantir em termos de higiene e o apreço pelas nossas origens e riquezas tradicionais, estas que são a fonte de apreço em sectores como o turismo e a gastronomia.

2. Sendo certo que quando não há condições mínimas não haverá outra solução, todavia, são manifestamente insuficientes as leis (feitas por quem conhece as “raízes” do país?) que num instante mandam fechar, como se não existissem pessoas e outros valores envolvidos. Mesmo para além da certificação de produtos regionais, sempre conducentes a uma industrialização da qualidade relativa, vemos muita gente a pedir um equilíbrio de procedimentos que consiga preservar no bom senso aquilo que são, que somos, mesmo como “petiscos regionais”. Se assim não for, uma uniformização à mesa conduzirá, a médio prazo, ao “plastificado” dos mesmos produtos em série, tudo igual, de norte a sul. Se Portugal não tivesse uma gastronomia riquíssima em zonas regionais que espelham a ancestralidade típica e se não tivéssemos no turismo uma tábua de salvação, talvez se pudesse compreender a opção.

3. Neste momento a “batata quente” (talvez não seja batata doce!) anda entre a autoridade competente e os legisladores. Nestes processos talvez tudo tenha sido falado, menos a urgente e essencial preservação daquilo que patrimonialmente à mesa nos caracteriza (?). Muito acima das questões de higiene e segurança alimentar (valores fundamentais sempre a preservar como “qualidade”), o que acontece é reflexo das tendências uniformizadoras dos tempos da globalização que vivemos. Como garantir a qualidade necessária diante da premente preservação da nossa identidade cultural, daquilo que nos caracteriza à mesa? Eis a questão fundamental (não apressada) para não vermos um país futuro de norte a sul com a mesma mesa, onde tenham desaparecido aqueles “petiscos regionais” que nos falam da nossa história e do paladar da nossa cultura.

Alexandre Cruz [23.01.2008]
[imagem Leitão à Bairrada ] fonte: http://www.cm-agueda.pt

Na Linha Da Utopia [22.01.2008]

O “Risco”

1. A história é revestida de equilíbrios provindos de “choques”. Bom seria que esses “choques” não existissem, mas eles são um facto. O famoso “Crash” dos anos 30, de que ouvimos falar como novidade em tempos, trouxe consigo um efeito dominó típico de estarmos e vivermos em rede. Hoje, mais que nunca sublinhe-se, a intensidade da “rede” é elevadíssima, tempo on-line, para o bem, para o menos bem e mesmo para o mal. Os mercados estão alavancados uns nos outros, num medir de forças ao segundo e num jogo mediático tornado de tal maneira forte em que, tantas vezes, valoriza-se mais o poder da imagem virtual que o real das condições económicas. Há já alguns anos, lembramo-nos do “fim” de algumas grandes empresas globais dos EUA que assentavam a sua lógica nos planos da virtualidade, até que ruiu…

2. A noção de “risco” está aí, novamente demonstrada. “Risco” e “Crash”, palavras a evitar dizer nesta estratégia de não contagiarmos o pessimismo das bolsas e dos mercados. Com antídoto para o “risco” aposta-se na palavra “confiança”, visando recuperar os equilíbrios perdidos. Só que estes, afinal, andavam mais ilusórios que reais. Tal como, por princípio, uma pessoa ou família não pode gastar mais que o que ganha ou tem, assim também quanto maior eram os índices de especulação dos mercados (nos EUA, desde há meses), maior será no reajustamento a crise. A recente crise dos mercados internacionais, entre as mais variadas razões, também demonstra que a virtualidade dos mercados mais dia menos dia acaba por descer à realidade, e que todos – uns com os outros - estão seguros por um fio comum. O que acontece em Nova Iorque, chega até nós, e o que se sente em Paris tem impactos em Tóquio, numa interdependência que impõe reciprocidades no reajustamento das situações de crise.

3. Os analistas da especialidade têm dito que as quebras rivalizam com o 11 de Setembro 2001, e numa “vertigem” que obriga a acompanhar o fuso horário das diferentes bolsas mundiais que unem as grande capitais do mundo. É a globalização dos mercados, que desafia à globalização da cooperação, como acontece nestes dias com o povo moçambicano vítima das cheias. À ideia global, desde os séculos XVI pertence a noção de incerteza e insegurança, pois «viver numa época global significa a necessidade de enfrentar uma série de novos factores de risco. Em muitas situações teremos de ser mais atrevidos do que cautelosos no apoio que dispensamos à inovação científica ou a outros tipos de mudança. Ao cabo e ao resto, uma das raízes da palavra “risco”, no português original, levou à criação de outra palavra que também significa “ousar” (Anthony Giddens. O mundo na Era da Globalização: 43). Seja uma globalização da ousadia mais justa e solidária.

Alexandre Cruz [22.01.2008]
[imagem Bolsa de valores ] fonte: http://ogerente.com/

terça-feira, janeiro 22, 2008

Na Linha Da Utopia [21.01.2008]

Aprender das diferenças

1. Que monótono seria o mundo se, sobre TUDO, todos pensassem da mesmíssima forma! Embora, muitas vezes, as próprias forças / sistemas sociais sobrevalorizem a uniformidade em vez da diversa criatividade, a história da humanidade, que em momentos determinados sofre os embates da hiper-confluência de tanta informação das diversidades, foi-se e vai-se construindo a partir das diferenças de formas de ser, pensar e agir. Todavia, toda essa riqueza da diversidade humana não provém de “uma qualquer diferença”, do fazer algo sem ninguém ter nada a ver com isso; a “diversidade”, na sua autenticidade, não se pode confundir com a libertinagem. Talvez aqui resida uma das grandes questões do tempo actual. Necessita-se de compreender as “diferenças” (de posição, cultura, política, religião) não pela sua rama mas na sua profundidade, pois só sabendo em que tabuleiro estamos é que será possível o aprofundamento das identidades no diálogo.

2. Este aprender das diversidades nada tem a ver com o proliferar das “diferenças indiferentes”, do ser diferente “por ser”, onde não há razões pensadas e amadurecidas para esta ou aquela posição. Já num patamar de superficialidade sem racionalidade, sem pensar o que se quer, então vale tudo, e as diferenças ganham um alcance desmedido e descentralizado do referencial inabalável da dignidade humana. No horizonte cultural e religioso o conhecer e apreciar das diferenças do outro acabam por mostrar o fascinante da aventura humana. Como refere Eduardo Lourenço, o pensamento, as filosofias e as religiões, representam as respostas mais profundas para o sentido da vida e da história. Estas diferentes abordagens não são superficiais mas tocam as razões profundas do pensamento humano; é neste patamar que o diálogo pode exercer pontes de um futuro mais digno e mais humano para todos.

3. A época que vivemos, com a redefinição da própria história à luz da globalização aceleradora, proporciona uma aprendizagem que dá valor àquilo que é diferente da nossa forma de pensar… Esta dinâmica procuradora e apreciadora não se confunde com anulação ou perca de identidade (outra palavra chave da actualidade), mas representa o aprofundar da mesma essência humana que nos une. Só neste terreno de qualidade, não superficial, poderemos mais e melhor discernir uma hierarquia de verdades que saiba diferenciar o que “passa” do que fica ou deve ficar. Dos bancos da escola à praça pública, talvez apreciar a riqueza dos que pensam (de forma pensada) diferente de nós seja um exercício para uma vida (com)unitária. O mundo precisa tanto de ler as diferenças como “complementaridades”. Cada vez mais, neste mundo, todos estamos no mesmo barco!

Alexandre Cruz [21.01.2008]
[imagem Eduardo Lourenço ] fonte: http://www.teiaportuguesa.com/

Na Linha Da Utopia [20.01.2008]

A Tri-Unidade Ecuménica

1. É um hábito anual que se poderia (e deveria) prolongar por todo o ano: mensal, semanal, diário. Um dia lá chegaremos, porque um infeliz dia de lá saímos. Este ano, de 18 a 25 de Janeiro (25 de Janeiro é celebrada a conversão de São Paulo – acontecimento que marca a matriz do espírito ecuménico), comemora-se os 100 anos da primeira Semana de Oração pela Unidade das Igrejas Cristãs. Foi no ano de 1908 (um ano depois da fundação do escutismo mundial por Baben Powel), em Graymoor - Nova Iorque, nos Estados Unidos, que pela primeira vez (de que há registos), após as grandes divisões seculares, os cristãos de diferentes igrejas se reuniram a orar pela unidade. Talvez hoje pareça estranhíssimo dizermos que antes as igrejas cristãs não se falavam…; para compreendermos bem o alcance e o progresso deste século teremos de ter presente a triste história das trágicas intolerâncias dos séculos XVI-XVII...

2. As distâncias culturais e linguísticas (não havia internet nem um “inglês universal”), uma cristandade de multidão de que os mosteiros foram sendo as sedes culturais, uma bem-vinda irreverência desinstaladora das comodidades da religiosidade imperial, a situada incapacidade de diálogos como entendimento das diversidades (particulares) na unidade (essencial), a perspectiva de uniformidade igualitarista em vez da complementaridade das diferenças, entre tantas mil-e-uma complexas razões terão estado na origem das divisões das igrejas cristãs. No séc. XI (ano 1054), a fractura a oriente (ortodoxa) mais por razões de cultura; no séc. XVI, a divisão (protestante) no centro da Europa, por razões filosófico-teológicas da ordem da salvação e interpretação da Escritura. Uma complexidade de aspectos que entranhou o ADN colectivo de que uns é que eram proprietários da salvação e outros não. Sem relativismos, no limite as maiores atrocidades na catolicidade foram cometidas e as igrejas o reconhecem.

3. Os tempos são outros. Há cem anos assim essa “corrente” tolerante e de unidade foi semeando proximidades no conhecimento das diversidades. Sem medos de perder identidade. Para além do aparato exterior, quanto mais conhecermos as razões de cada diversidade mais nos sentimos em unidade. O mesmo acontece com os seres humanos, é imensamente mais o que nos une que o que nos separa. O caminho é sempre o diálogo (Vaticano II). Sem ingenuidades simplistas mas na purificação da memória (João Paulo II). Com todos os aprofundamentos rigorosos e discernindo entre o que são os dispensáveis acessórios e o ESSENCIAL que importa potenciar. O apelo continua a interpelar: «Que sejam UM». É irreversível, mas só com coragem dos líderes, o povo seguirá. Quanto ao designado Espírito Santo, Ele sempre quis a UNIDADE, Ele a vive na Trindade. Voltemos a Oração Ecuménica para nós e para a história que temos a construir. Deus não nos dispensará, mas sem (o Seu) Amor adiamos, adiamos...

Alexandre Cruz [20.01.2008]
[imagem Logotipo do site ] fonte http://www.ecumenica.it

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Na Linha Da Utopia [17.01.2008]


Que Sapienza?!

1. “Sapienza” é palavra italiana que significa “sabedoria”. A Universidade La Sapienza de Roma é uma prestigiada universidade, hoje pública, que nasceu a 20 de Abril de 1303 por decreto papal de Bonifácio VIII. É uma das mais antigas e maiores universidades do mundo, com cerca de 150 mil estudantes. À sua história pertencem momentos conturbados da própria história da Europa e, dentre as várias reformas de que foi alvo, destaque-se mesmo a Reforma Napoleónica. Na natural preocupação de confrontar conhecimentos com intelectuais de todas as épocas, a Universidade La Sapienza, aberta à pluralidade de expressões, desta vez convidara o teólogo papa Bento XVI. Saudavelmente, tal como vai convidando intelectuais de toda a ordem filosófica, política e religiosa, desta vez o livre convite dirigia-se a uma das personalidades do mundo cultural, que aceitara com o maior prazer.

2. O que não seria nenhuma notícia de especial acabou por sê-lo. Um grupo de professores, intelectualmente mais uma vez descontextualizado afirmações (de há anos) deste pensador, mobilizou opinião contra a sua vinda. Rapidamente os estudantes foram apanhados na rede que ampliaram, gerando-se o mau estar com proporções anuladoras da visita de Bento XVI. Muito para além de questões de religião, este cenário, primeiramente, diz-nos que qualquer personalidade que represente uma determinada comunidade corre hoje o perigo de não ser bem-vinda ao “espaço público” de todos. Sinal de intolerância das liberdades? Segundo, porventura, na falta de qualidade racional, pode-se abrir palco a ideias de ditadores mas fecha-se a porta à liberdade de expressão do confronto saudável de ideais e valores… Caminha-se “anti”, será laicismo intransigente? E a LIBERDADE proclamada?

3. É certo que existe uma factura histórica que se paga sempre no presente, quando as hegemonias outros séculos foram impostas à força, tanto da parte de sistemas filosóficos, políticos e religiosos. Mas as intolerâncias crescem tanto mais quanto menos a cultura da racionalidade iluminar o pensamento. E é aqui que a exclusão de Bento XVI, como dizem vários pensadores ateus e agnósticos, acaba por ser sinal de desonestidade intelectual para onde deixámos cair os valores e a razão. Defensor dos princípios da laicidade, Ernesto Galli, editorialista do jornal Corriere de la Sera, escrevia que este gesto traduzia «uma laicidade oportunista, alimentada por um cientismo patético, arrogante na sua radicalidade cega». Correrá Ernesto Galli perigo de vida?! A este caso poderemos juntar (em âmbitos diversos) o da visita de Dalai Lama ou a famosa aula do papa na Universidade de Ratisbona do ano passado, onde as frases retiradas do contexto foram o que foram.

4. Independentemente de todas as histórias do passado, e de todos os lados da barricada, precisa-se de uma ordem da racionalidade justa e honesta que não se feche à pluralidade de opinião e compreenda o pensamento “lendo” até ao fim. Quando não, adeus liberdade ocidental! Claro, de tudo isto a única preocupação será a Liberdade, na Verdade, com Humanidade. Embora marcando o timbre do tempo, tudo passa; em tempo global, as aberturas são mesmo irreversíveis. Sejam ao serviço da Humanidade aberta.

Alexandre Cruz [17.01.08]
[imagem Universidade La Sapienza - Roma] fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Universidade_La_Sapienza

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Na Linha Da Utopia [16.01.2008]

A Identidade à Francesa!

1. A força cultural de certos países foi e vai imprimindo as suas próprias modas como hábitos de pensar e viver. Tantas vezes uma impressão quase imposição de modelos que, herdando momentos decisivos da história do passado, acabam por “ir à boleia” da sua memória não se vendo no presente como sair do pântano... Quantos clubes e mesmo instituições cristalizaram no tempo e nos seus tempos gloriosos passados! Claramente salta à luz do dia que, com a velocidade dos acontecimentos da história presente e na incapacidade da adaptação das tradições pesadas, o cordão umbilical da ligação à contemporaneidade se vai perdendo. Isto mesmo aplicar-se-á às linguagens, às instituições de ensino, às instituições políticas e mesmo religiosas. Hoje, o ritmo de tudo será diário, e numa transversalidade de processos andantes e, aos níveis institucionais, necessariamente transnacionais. Nada de novo; ou melhor, tudo novo, quando não, o comboio passa…

2. Neste sentido muito concreto, quase que se poderá perguntar: que vale ao Benfica ter uma história gloriosa se hoje a “coisa” não funciona? Que valerá aos portugueses a lembrança nostálgica dos feitos heróicos de há cinco séculos se hoje não se beber desse dinamismo criativo e visionário? Que vale à França ter marcado a história com uma Revolução Francesa (1789) de alguns valores universais, mas que depois se tornaram nacionalistas… conduzindo a sua própria história com défices interculturais? Enfim, tudo tem o seu valor… numa história que nunca se deve (nem pode) apagar. Mas por vezes parece que preside às relações das nações um contraditório: por um lado não se dá lugar às grandes mensagens históricas que construíram o património de valores universais, por outro, quando dá jeito, puxa-se pelos galões da história particular de cada nação para a garantia de superioridade sobre “o outro”…

3. A própria história, afinal, que se constrói todos os dias, encarrega-se de diferenciar positivamente o que tem valor. O segredo dos portugueses no séc. XV-XVI, da Holanda no séc. XVII e dos Estados Unidos no séc. XVIII-XX foi a capacidade de abertura cosmopolita, lendo a “diferença” como “complementaridade” numa unidade superior. O “fechamento”, quer por motivações políticas, filosóficas ou religiosas, sempre conduziram ao isolamento asfixiante, ao princípio do fim. O que acontece em França, diríamos, é consequência natural das opções seculares exclusivistas sobre os “outros”... Uma identidade “à francesa” que vai perdendo terreno no panorama social, cultural, literário, estando a cidade de Paris sem a “Luz” que outrora foi impulso na ordem da racionalidade.

4. Neste particular, Nuno Rogeiro há dias destacava que, diferentemente dos relacionamentos nas comunidades hispânicas e francófonas, as comunidades lusófonas vivem uma (quase generalizada) proximidade sadia… O que faz com que muitas das ex-colónias francesas e mesmo inglesas da África do futuro aprendam o “português” como a língua dos relacionamentos culturais e comerciais. Também as últimas presidências francesas têm demonstrado (e continuam) que, em termos de liderança e visão, a “razão” das luzes anda descolorida… Entre as múltiplas identidades como pertença futura, talvez a “identidade à francesa” como sinal de modernidade tenha os horizontes mesmo comprometidos.

Alexandre Cruz [16.01.2008]
[imagem Torre Eifel ] fonte: http://www.meridianos.com.br

terça-feira, janeiro 15, 2008

Na Linha Da Utopia [15.01.2008]

O Fórum Aliança de Civilizações

1. Está a decorrer em Madrid o 1º Fórum da Aliança das Civilizações. Na sua linha programática procura-se a “apresentação de iniciativas e projectos de alto nível para fomentar o diálogo intercultural”. Mas, mesmo com a presença de diversos prémios Nobel da Paz e do Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, a primeira nota de destaque é a generalizada indiferença da imprensa espanhola. Sinal dos Tempos?! O projecto Aliança das Civilizações foi iniciativa lançada em Agosto de 2005 por Kofi Annan e com o co-patrocínio da Espanha e Turquia, tendo sido nomeado Jorge Sampaio como Alto-Representante da ONU (14 Julho 2007). Para o país fundador, o relativo desinteresse não deixa de surpreender…

2. Destaque-se os alcances do trabalho em realização em Madrid, com personalidades da sociedade civil, política, religiões, cinema. Entende-se que a juventude e a comunicação social são eixos estruturantes nos quais apostar para o entendimento entre culturas; procura-se criar plataforma de troca de informação relacionada com o “diálogo de civilizações, religiões e culturas”; será elaborada bolsa de personalidades e peritos disponíveis para intervir sobre estas matérias, especialmente em tempos de crise; dá-se destaque às parcerias entre organizações internacionais e a Aliança, aguardando-se, da parte de diversos países, as estratégias nacionais para o diálogo cultural. Se todo este conteúdo não chega para despertar a máxima atenção, então…?

3. A lacuna da generalizada indiferença continua a confirmar que (infelizmente) se prefere o choque estridente de um atentado à verdadeira e profunda formação da consciência para a coexistência pacífica das nações. Tal como a água ou a saúde, só apreciamos devidamente quando nos faz falta. Que limitação humana (d)a ausência de memória! Já agora, para que não se perca, registemos também que a Aliança procura a criação de um espaço político “multipolar e global” com o fim de lutar contra a “falta de entendimento e de comunicação” entre as diversas concepções de mundo, destacando-se o papel dos agentes internacionais, a educação e formação, a função da comunicação social e do papel dos líderes e religiões.

4. Estamos no Ano Europeu para o Diálogo Intercultural. Uma oportunidade privilegiada de aprofundar a essência dos intervenientes e das autênticas condições do diálogo. Não chega uma visão simplista, mas uma ideia desenvolvida inclusiva do todo (do mundo). É nesta linha que, entre as temáticas, o Fórum aborda “a gestão da diversidade na era da globalização” procurando entrever os “desafios políticos no Diálogo de Culturas”. Eis o perfil do que está a acontecer; importante demais para “passar” num minuto de informação. Jorge Sampaio, optimista, reconhece que o caminho é longo, que exige “persistência e paciência”. Mesmo (na atenção) sem limites!

Alexandre Cruz [15.01.08]
[imagem cidade de Madrid] fonte: http://www.fd.uc.pt

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Na Linha Da Utopia [14.01.2008]




O fosso

1. Um desenvolvimento justo e harmonioso garantirá o equilíbrio dos vencimentos dos que gerem em relação aos empregados. Nos países democráticos chamados “desenvolvidos”, esse equilíbrio salarial dará o sinal do caminho certo; em países que ainda não assumiram integralmente essa concepção de justiça diária, as distâncias são exorbitantes. Nestes, “subdesenvolvidos” em relação ao ideal, o fosso é gigantesco, a ponto de em muitos países (do chamado, sabe-se lá porquê…, “terceiro-mundo”) assistirmos a líderes ditadores riquíssimos estando o seu povo mergulhado nas maiores indignidades humanas.

2. Consequentemente, quanto maior for o fosso dos reconhecimentos salariais (do patrão em relação ao empregado), maior é o atraso da ideia e do concreto da sociedade civil de um país. Há dias a revista Visão (nº 775, 10 Janeiro) trouxe a público alguns resultados, estudando os vencimentos de 25 grandes empresas. Destacava-se, entre tantíssimos casos exorbitantes que, por exemplo, o vencimento mensal de um administrador da PT daria para pagar 128 salários/mês aos trabalhadores da empresa. Diferenças abissais, de um património empresarial que, se alguns têm o privilégio de liderar vivendo folgadamente, outros, a grande maioria (que o constroem), vivem no fio da navalha da gestão da vida mensal.

3. No Portugal que, como dizem os estudiosos, não fez uma Revolução Industrial, ainda se vê muito a empresa mais como uma regalia (de quem a consegue erguer) do que como uma transversal responsabilidade social. Não está em causa o mérito da gestão daqueles que têm a arte e o engenho de “arriscar” e que, tantas vezes, sofrem no silêncio as incertezas das apostas; aqui, seja reconhecido o mérito. Mas estará, sim, em causa, toda a distância gritante de salários (entre o topo e a base) que espelha a distância (do novo-riquismo) de concepções entre quem gere e quem trabalha na obra. Afinal, que seria de uns sem os outros?

4. Este é um assunto que nos países democráticos, que querem crescer harmoniosamente na base da justiça social, está no mapa das preocupações. Pelo próprio George W. Bush dos EUA, potência mundial, esta desigualdade tem sido denunciada. Entre nós, na mensagem de ano novo, o presidente da República tocou no assunto, referindo-se aos “salários imorais (?)”. Está em causa o equilíbrio da sociedade e a consciencialização da identidade de cada pessoa na pertença à comunidade, mas onde os próprios líderes haverão de liderar pela simplicidade. O “lucro pelo lucro” e às custas da injustiça sempre foi raiz de instabilidade social. É certo que este “fosso” não é algo que se resolva de um dia para o outro, e que na sua resolução estará a responsabilidade, tanto da base como do topo. Tudo depende de que sociedade queremos, mesmo para os descendentes dos senhores do topo…

Alexandre Cruz [14.01.08]
[imagem Logotipo da empresa PT] fonte: http://www.telecom.pt/

Na Linha Da Utopia [13.01.2008]

Preservar a raiz = Família

1. Quando do nascimento do Estado Moderno (séc. XVI-XVII), dava à luz uma identificação absoluta entre as ideias do rei e do seu povo súbdito. O ditado “cuius regio eius religio” obrigava a uma unidade de uniformidade, na qual o pensamento dos donos do poder (rei e príncipe) teria de ser religiosamente seguido pelas sociedades do antigo regime. Dessa forma, as diversidades e diferenças (especialmente na Europa fracturada das reformas) eram anuladas e, muitas vezes, combatidas até à exaustão.

2. Esse espírito subiu até à razão de estado que trouxe a liberdade da Revolução Francesa (1789). Um Estado de Direito que, benéfico na organização da “casa” da diferenciação dos poderes, cedo viria a revelar incapacidade de gerar a coexistência das diversidades e das autonomias das pessoas, das famílias, das mulheres,... Os nacionalismos decorrentes da Revolução Francesa espelham bem que essa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) não trazia consigo a abertura à dignidade humana, vindo a colidir nas guerras do séc. XX.

3. Toda esta reflexão que apresentamos pretende sugerir que hoje estamos num tempo (humano) novo. Neste, os Estados, em democracia, têm de ser relativizados em função das Pessoas concretas na sua situação, sendo a liberdade (claro, responsável, na verdade digna) a fronteira do entendimento de todas as razões. Quanto à célula-raiz da sociedade, a FAMÍLIA, a Declaração dos Direitos Humanos (1948), que constitui uma aquisição de civilização jurídica de valor essencial, afirma que «a família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito a ser protegida pela sociedade e pelo Estado» (artigo XVI, nº 3).

4. Do dito anteriormente, consequentemente, tudo muda de cenário. Os estados (entidade sempre anónima) não são absolutos, mas sim as pessoas (“entidade” sempre real). O preâmbulo (1º) da Declaração dos Direitos Humanos considera «que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo». Assim, a construção da paz, por isso, só é possível na base da dignidade humana comum. Nos contextos sociais que atravessamos, é neste sentido que Bento XVI alerta que «a negação ou mesmo a restrição dos direitos da família, obscurecendo a verdade sobre o homem, ameaça os próprios alicerces da paz» (nº 4 da Mensagem do Dia Mundial da Paz – 1 Janeiro 2008, com o tema Família Humana, Comunidade de Paz).

5. O desapreciar sucessivo da comunidade familiar (em paradigmas de vida e mesmo em liberdades sem referenciais de legislações europeias e entre nós), vai trazendo consigo águas inquinadas quanto ao futuro. Já os Direitos Humanos sublinham que «ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar… » (artigo XII). Bento XVI complementa destacando que, assim, «quem, mesmo inconscientemente, combate a instituição familiar debilita a paz na comunidade inteira, nacional e internacional, porque enfraquece aquela que é efectivamente a principal “agência” da paz» (nº 5 da Mensagem - Dia Mundial da Paz 2008). Sem a FAMÍLIA de sempre não haverá futuro sensível e humano. É claro, como sugere Agostinho da Silva, “o tempo que vivemos se for mesquinho, amesquinha o eterno”. Há uma classe pensante, e que sabe do valor insubstituível da família, mas que…vai deixando correr a água.

Alexandre Cruz [13.01.08]
[imagem família] fonte: http://gprata.blogspot.com

Na Linha Da Utopia [10.01.2008]

A triagem das ideias

1. No mundo da liberdade de mil-e-uma-opiniões, visões, perspectivas, sugestões, convites, publicitações, é a cada pessoa que cabe a determinante opção. Péssimo seria o tempo, já ido, em que não existisse liberdade de opinião e de manifestação de suas ideias. Todavia, o reverso da medalha da liberdade exigirá uma capacidade de triagem que se afirme como valor fundamental na formação humana, onde existam razões conscientes que verdadeiramente iluminem as opções. É diante dos mundos-e-fundos de ideias, que se vêm na televisão ou se escrevem nos jornais e revistas, que importa não acreditar em tudo, mas possuir uma visão crítica do que nos entra pela porta dentro…e ajudar os novos nesta tarefa.

2. Pelo panorama da recente quadra festiva, neste particular, não estamos muito bem. Num país com dificuldades sócio-económicas, somos dos primeiros do mundo no embarque das novidades das comunicações móveis e no envio desmesurado de milhões e milhões de mensagens. Bom, sejam elas sempre manifestação dos melhores sentimentos para todo o ano!... Mas, confrontando com os países europeus, uma generalizada sedução fácil pelas “últimas modas” diz-nos que “algo” está por ajustar, um sentido crítico do essencial continua por apurar, uma capacidade de triagem de tudo o que se publicita (ferreamente, Lipovetsky) vai faltando, estando as novas gerações na encruzilhada de uma necessária (mas difícil) mudança de mentalidade.

3. Quer no âmbito, muitas vezes, dos debates políticos onde um contraditório discursivo vem à luz do dia, dependendo do lado em que se está (oposições versus governos), quer nos mediáticos colunistas de opinião dos variados órgãos de informação (daqueles que muitos criticam porque falam sobre tudo… mas se falarem só da sua especialidade são na mesma criticados que mais nada sabem além de sua área…!), será às pessoas, aos cidadãos, que cabe a essencial missão de discernir entre todo o alarido confuso aquilo que se afirmará como “o caminho” a seguir. Tarefa esta tanto mais difícil quando, muitas vezes, às próprias instâncias de comunicação, falta uma isenção informativa que forme na autocrítica as pessoas da opinião pública social.

4. Talvez, numa sociedade adulta, este seja um dos valores fundamentais: a capacidade de, com espírito crítico, discernir para diferenciar o prato certo no meio de tantas ementas que nos querem servir... Não falamos do criticismo descomprometido; e numa visão superior de liberdade social como acolhimento da opinião de cada pessoa, nada haverá a obstar para essa visão personalizada… Destaque-se é que “a faca e o queijo” está do lado dos cidadãos; se estes vão (vamos) pelo último grito da moda quase imposto pela publicidade é porque falta (re)formarmos as virtudes pessoais para o essencial de cada dia que não deixará naufragar o Ser em tantos supérfluo que atrapalham um saudável sentido de vida com os outros. É verdade, cada vez será mais difícil ser pessoa, e ao mesmo tempo mais fascinante. O que é preciso é fazer opções na triagem do essencial.

Alexandre Cruz [10.01.2008]
[imagem Bifurcação] fonte: http://padremario.blogspot.com

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Na Linha Da Utopia [09.01.2008]

EUA, mais que uma eleição

1. Já foi dado o arranque para as eleições americanas. Um acontecimento que encherá as páginas dos jornais mundiais mais para o final do ano. Há dias alguns comentadores diziam que 2008 já será um ano bom só pelo facto de W. Bush sair do poder. Efectivamente, a conjuntura dos mandatos do presidente republicano, a dúvida milimétrica da sua reeleição, o avanço do unilateralismo impulsivo sem “ligar” à comunidade internacional como resposta ao 11 de Setembro, a despreocupação ambiental, faz com que o seu nome fique registado na história não pelos melhores motivos.

2. Também ninguém duvida que os dias seguintes ao lunático atentado de Nova Iorque, para qualquer presidente que fosse de qualquer nação, representam um choque a que, inicialmente, o pragmatismo socorrista de Bush revelou alguma lucidez, mas que, todavia, mais a frio, não seria consequente... No final do seu mandato, restará perguntar como teria sido Bush sem o 11 de Setembro? Mesmo para além das ideias e dos tempos de seu pai, teria assinalado o seu mandato com esta impressão digital da “força”, de forma precipitada e despreocupada em actuar sem sentido de comunidade?

3. Como a história não é feita de “ses”, daqui a 20 anos este será recordado como o presidente da potência ferida, o presidente do 11 de Setembro 2001 que deixará por longas décadas essa espinha cravada na garganta americana em que nada fora como dantes; será também o “presidente do Iraque”, o comandante do “atoleiro” americano dos inícios do séc. XXI. Em toda a conjuntura do tempo histórico vivido nesta década, e quer se queira quer não, esta eleição que se prepara em 2008 é muito mais que uma eleição americana. Todos os candidatos falam da “mudança”, o grito de apelo do mesmo povo “guerreiro” que depois dos atentados pediu uma resposta condigna a Bin Laden…

4. De uma forma ou de outra, a mudança virá. Mas se ela consegue recolocar os Estados Unidos num diálogo parcelar com as outras nações na base do direito internacional e no papel determinante das Nações Unidas, é tarefa que pelos “anos perdidos” levará tempo a recompor. A herança é pesada, e, nem que não queira, o próximo(a) presidente dos EUA tem que “carregar” o peso de erradas decisões da administração Bush. Enquanto isso, o mundo vai mudando, o seu centro já é a Ásia. A geopolítica do futuro diz-nos que (historicamente, ganhe Barack Obama, ganhe a mulher Clinton) os contrapesos políticos em oito anos mudaram, e ainda, há que contar novamente com a sedenta Rússia.

5. Uma coisa é certa, como em todas as enrcuzilhadas, a SABEDORIA será o caminho... Será que também aqui o chamado mundo rico Ocidental está a perder terreno?!

Alexandre Cruz [09.01.2008]
[imagem Campanha de Barack Obama] fonte: http://vejaonline.abril.com.br/

Na Linha Da Utopia [08.01.2008]

Os reversos do pragmatismo

1. É bem verdade que, em determinadas circunstâncias, há que agarrar as problemáticas com o espírito de decisão e determinação. Quanto maiores forem as vicissitudes mais o apuramento do sentido prático ganhará revelo. Mas não será neste aspecto prático das resoluções que estará o “busílis” das questões fundamentais. O povo, da sua sabedoria demonstradamente longínqua, concluiu que “depressa e bem há pouco quem”. Apela-nos este chavão a uma leitura contextual, ampla, abrangente das realidades e complexidades, contrariando assim a visão simplista e afunilada das coisas.

2. Saliente-se que o necessário sentido prático (sempre reconstrutivo) como finalidade de todos os conhecimentos não exclui, na sua essência, a profundidade levada até à existência reflexiva para decisões globais e mais servidoras. Assim, não há incompatibilidades entre o ser-se prático e o ser-se reflexivo, aliás quanto mais este pendor pensante progredir mais a qualidade (em quantidade) triunfará. Aspectos bem diferentes, que valerá a pena destacar, são os pragmatismos apressados, menos bem pensados, inconsistentes, de pés de barro, que mais representam impulsos voluntaristas que, com o passar dos dias, significarão o andar para trás…

3. Muito do pragmatismo precipitado que, qual novo empirismo (da imagem), vemos em muitos dos impulsos mediáticos têm esses pés de barro a desmoronar-se. A “coisificação” da vida, o ser-se não reflexivo e não pensante, a despreocupação pela profundidade das culturas, das razões e do sentido da vida, vão reduzindo cada vez mais os alcances dos ideais, fazendo baixar, drasticamente, a fasquia dos “objectivos de vida”. É neste pântano empírico, pragmático (da exaltação do prático, é barato e dá milhões!) ilusório que se sente o iato da inexistência de pontes (de sentido) com futuro.

4. À medida que os pragmatismos vão subindo aos múltiplos tempos e lugares, as sensibilidades transformam-se em números, no ter nos números, e nas incapacidades de se construir um desígnio comum participado, onde o “outro” diferente tenha lugar. Poder-se-á dizer que, da raiz do ocidente (Platão), a meta continua a ser a “felicidade”. Pelo pragmatismo, atingiremos a felicidade? Na resposta da história, não. Se épocas existiram em que o empirismo floresceu, ele representa só o “caminho”, não a meta final. Os tempos que vivemos vão transformando o “meio” das coisas no “fim” da vida, por isso estamos “no meio da ponte”.

5. As pragmáticas lideranças que só olham para a frente, também, desafiam os cidadãos humanos a pensar nisto. Para que não andemos aos solavancos, mas nos construamos mais e melhor nos consensos fundamentais.

Alexandre Cruz [08.01.2008]
[imagem Assembleia da República Portuguesa] fonte: www.diarioinsular.com

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Na Linha Da Utopia [07.01.2008]

O Labirinto da Saúde

1. Talvez estejamos mesmo na fronteira das ideias e do tempo. O novo ano entrou de bandeiras no ar a pedir a “esmola” da saúde. Na fronteira da preocupação, as vozes democráticas têm recorrido à constituição da república portuguesa, relembrando a urgência da saúde de proximidade que garanta (ao menos) esta segurança à população; as vozes da tutela dizem que daqui a um ano já estamos todos habituados ao novo regime…(!). As contradições sucedem-se no tentar acalmar as águas da tempestade, a contagem das horas de espera nas urgências tem dois ritmos, os “porquês” defraudados de uma distância crescente de Lisboa ao país real assinala esse desencanto de um povo (de todo o país) para quem os novos aumentos (também na saúde!) do ano novo são uma verdadeira aflição.

2. Sempre assim foi e sempre será nas sociedades humanas: o lugar que se dá aos mais desprotegidos é o “sinal” do que se tem no horizonte das ideias. Em múltiplas áreas, como no esforço da reinserção qualificada, tem sido dado oportuno lugar à formação e rigor como alavancas do futuro. Mas esse peixe acaba por morrer fora de água quando a sensação do abandono cresce, todas as distâncias aumentam, as desertificações (do interior do país, um verdadeiro drama adiado) dão a entender que, desequilibrados na nossa geografia, caminhamos para um desequilíbrio nas “periferias” sem fim à vista. Como pode a comunidade nacional ser consequente na exigência e presença quando a ordem da gestão proclamada social vai tendo na palavra “fechar” a sua chave mestra?! Delicada questão (que as pessoas vivem).

3. Ao mesmo tempo, já muito do povo deste país quase que sente (e diz, ou já nem sequer diz), implorando: fechem-nos tudo, mas não nos fechem a saúde e nesta deixem-nos abertas as urgências! Neste labirinto (não linear, em que, é certo, haverá muitas áreas de reforma) torna-se difícil vislumbrar a saída… É comovente e ao mesmo tempo interpelante ver populações a dar a resposta de generosidade, disponíveis para a aquisição de equipamentos que faltam nos serviços; alarma um certo desportivismo nas visões que dizem que “o povo daqui a um ano habitua-se!”; interpela gente a testemunhar que se fosse há uns meses… já teriam falecido. É a realidade!

4. O assunto da saúde (e nesta o das urgências) é sério demais para ser uma questão de números contabilizados até para fechar serviços que há breve tempo tiveram obras de fundo com dinheiros públicos. Ou será que nesta visão social que preside interessa bem mais dizer daqui a dois anos que endireitámos as contas (à custa desta desagregação social), e assim já podemos fazer as obras de regime (no litoral)? A inquietude, embora silenciosa, atravessa o pensamento também dos que pertencem à mesma casa das ideias. Afinal, que filosofia, valores e referencias presidem a tantas destas manifestações de despreocupação com a realidade social concreta das pessoas? Há uma grande insegurança no “ar”, a crescente multidão sofrida das “periferias” sai sempre vencedora; o labirinto terá saída!

Alexandre Cruz [07.01.2008]
[imagem logotipo do Ministério da Saúde em época natalícia] fonte: http://www.dgs.pt/

Na Linha Da Utopia [06.01.2008]

O Mundo em Aveiro

1. A quadra das festas natalícias e de ano novo também nos ajudam a conhecermos e reconhecermos os horizontes alargados de Aveiro. Do Natal de 25 de Dezembro ao de 6 de Janeiro (Natal neste dia Celebrado entre nós na Comunidade Ortodoxa de Aveiro), a mobilidade humana trouxe até nós, pelas variadas razões, gente de todo o mundo. Todo o ano estão connosco, mas nas alturas das festas damos por isso de forma mais clara. Uma cidade e região cosmopolita que muito deve aos que foram e vão rasgando o horizonte da história. Por vezes falamos com pessoas que foram acompanhando o progresso de Aveiro das últimas décadas e quão diferente (de há 40, 30 e 15 anos) que hoje se afirmam os ares aveirenses. Uma multiplicidade de gentes do mundo, todos os dias, estudam, trabalham, vivem entre nós. Facto a que um povo acolhedor não tem sido indiferente, mas tem procurado adaptar-se no melhor possível.

2. Todavia, nesta adaptação intercultural, a fasquia do ideal está sempre acima das realizações. O viver em “rede” obriga aos momentos insubstituíveis de encontro, conhecimento da diversidade cultural, num espírito de admiração e fascínio, como, vencendo a neutralidade dos vazios, de aprendizagem recíproca (quando não seremos vizinhos estranhos!). Nesta reciprocidade tão exigente, diríamos, valorize-se tudo o que é bom e que nos fortalece nos laços de unidade e paz, e relativize-se aquilo que é relativo, que divide, que distancia. Também aqui, o espírito de verdadeiro Natal que nos ergue de esperança para um novo ano 2008, deseja ser ponte sem fronteiras no apreço pelo dom do tempo (sempre único e irrepetível) de vida que estamos e aprendemos uns com os outros. De “todos os nomes”, todos os votos partilhados de um bom ano, espelham essa vontade ancestral da esperança comum que nos habita as entranhas!

3. Pontualizemos na Ceia de Natal Universitária. De há longos anos que para os membros da Comunidade Universitária que nesta quadra ficam em Aveiro (Estudantes e Professores), realiza-se a Ceia de Natal Universitária. Numa parceria de entidades da vida universitária diária, e com a presença natalícia de seus máximos responsáveis, destacamos que este ano a Ceia contou com cerca de 110 participantes, de 25 países (que vivem U_Aveiro connosco), que nomeamos: Angola, Benin, Brasil, Cabo Verde, China, Cuba, Espanha, Etiópia, França, Guiné-Bissau, Índia, Irão, Malásia, Moçambique, Nigéria, Paquistão, Polónia, Portugal, Rússia, São Tomé e Príncipe, Sérvia, Tailândia, Timor, Uganda, Estados Unidos da América. Estes “nomes” à mesa, da raiz da sua diversidade cultural, dizem tudo! Se cada vez mais o mundo está em Aveiro, todas as aberturas de sensibilidade múltipla só se podem abrir ao mundo! Seja 2008 uma “Ceia de Natal”! Ela só se “põe” no “sonho” diário…

(4. Após a pausa natalícia, regressámos à Linha da Utopia. Amanhã com “O Labirinto da Saúde”.)

Alexandre Cruz [06.01.2008]
[imagem Centro de Congressos de Aveiro] fonte: www.cm-aveiro.pt

quinta-feira, janeiro 03, 2008

INCÓMODO DE PRECONCEITOS ANCESTRAIS

A anunciada e confirmada converssão de Tony Blair ao catolicismo tem incomodado muita gente. Uns manifestam-se, directamente, sobre o a despropósito desta conversão. Outros, em surdina ou a pretender assobiar para o lado, não conseguem esconder o desconforto. E também não falta quem vá dizendo que, apesar de tudo, o número crescente dos ateus é mais significativo na Europa que uma conversão isolada e, segundo dizem, por meros motivos de família...
Quem anda atento ao que se diz, escreve, mostra e publica, decerto se apercebeu, desde há tempos, do ribombar do trovão e dos rugidos que o pressagiavam. De repente, e sem que nada o fizesse esperar, os diários começaram a pedir entrevistas a gente pouco opu nada conhecida, os editores a publicar livros que, logo na capa, publicitam se publicitam a si próprios, falando de milhões (!) de exemplares vendidos, por se tratar de “um livro que está a abalar o mundo”.
Os entrevistados e os autores podem ser pessoas famosas no campo científico. Alguns até serão. Começamos a lê-los e fica-nos logo e sempre a sensação de que se trata de mais um sapateiro, como o da fábula, que foi além do chinelo do seu normal e competência.
Ninguém tem razão para criticar ou julgar quem livremente se professa crente ou não crente. Mas já não se iliba de poder ser julgado quem da sua opção faz teoria, muitas vezes coxa, àcerca de verdades que constituem o credo de quem tem, na sua fé, a força, o sentido e a razão do seu viver e agir diários.
O patriarca de Lisboa disse, na sua mensagem de Natal, que “Todas as formas de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esqucimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade”. Não faltou logo quem viesse contrapor, em jornal diário de grande audiência nacional, que “O ateismo é aquela opinião, hoje em dia trivial, de que a existência de Deus é altamente improvável ou mesmo impossível”. E acrescenta o autor do escrito: “Mas não é bizarro que, nos dias de hoje, e com tanto por onde escolher, mesmo um cardeal designe tal ideia, como “o maior drama da humanidade”? Não, não é bizarro nem está fora do nosso contexto social.
Nada mais sério e mais digno de respeito que a verdade feita vida na vida de muita gente, e seja testemunhada com obras, atitudes e compromissos, que certamente não existiriam sem essa adesão existencial.
Muita gente, na actual sociedade, nega Deus, o Deus transcendente e revelado, para coleccionar ídolos ou se fazer a si próprio deus, numa luta de concorrência com quem dificulta o seu caminho ou, usando do mesmo direito, também, legitimamente, se reivindica de divino ou de fazedor de ídolos. A tentação de muitos é de serem deuses. Uma tentação que vem de longe e a história se foi encarregando de mostrar que, quando os pés são de barro, ainda que seja de ouro o pedestal da estátua, esta não vence o tempo normal, quanto mais o inclemente e invernoso.
Deus está menos atento à inteligência de quem O nega, que ao coração de quem O procura. Menos preocupado em responder a opiniões, mas mais atento a dar razões que justifiquem a Sua presença e sinais que acordem a vida e os compromissos das pessoas e da sociedade.A prova de que o ateísmo é um verdadeiro drama está aí bem à vista. A perda de sentido na vida de muitos jovens e adultos, o desprezo por compromissos públicos assumidos na família, a insegurança e a debilidade nas relações pessoais e no ambiente em que se vivemos, o menosprezo pelas pessoas em troca de resultados políticos, o individualismo que seca o amor e a ternura, o endeusamento do passageiro e transitório que desembocam no campo desafeiçoado de um vazio sem limites, o relegar progressivo das exigências da justiça e do bem comum para um minguado lugar social, a incapacidade de gratuidade para muita gente a que sobra tempo e dinheiro, o alto peço da guerra pago pela miséria para onde se atiram os pobres e indefesos… Que denuncia tudo isto e muito mais, senão ausência de Deus ou de uma referência segura que não anda ao sabor de gostos e interesses, mas é permanência que não ilude, nem deixa cair da ilusão quem acredita seriamente num Deus Pai? Pai mesmo daqueles que O negam, O esquecem ou que sentem o Seu incómodo? Na hora da verdade, mesmo para os que não crêem, tudo ficará claro. Para o verdadeiro crente é claro desde já, aqui e agora.

António Marcelino, Bispo emérito de Aveiro
[imagem Tony Blair com o padre Michael Seed] fonte: http://igrejauna.blogspot.com

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Fórum::UniverSal [09.I.08]

Fórum::UniverSal

Quando o sentido universal e a cultura marcam encontro, entre o ‘fazer’ e o ‘significado’
CONVERSA ABERTA SOBRE A ACTUALIDADE 1ª QUARTA DO MÊS CUFC 21.00h

CONVITE

09 de Janeiro [2ª Quarta] 21.00h::CUFC Campus UA

A Dignidade Humana das Nações
c/ Nuno Rogeiro
(O primeiro Fórum::UniverSal de 2008 será dedicado ao tema da DIGNIDADE HUMANA. NUNO ROGEIRO, reconhecido politólogo, virá partilhar connosco sobre as problemáticas e as esperanças em torno da DIGNIDADE HUMANA DAS NAÇÕES. Entrada livre! Participa!)

Moderação: Isabel Segadães


Participe

anfiteatro CUFC campus UA

EscuteRádio Aveiro FM 96.5 >Sábado, 12h-13h hemisfério norte

Leia Jornal Semanário Correio do Vouga


Organiza centro universitário fé e cultura
fundação joão jacinto de magalhães editorial UA

Apoia Jornal Diário de Aveiro Jornal
www.ua.pt/uaonline

ParceirosAAUAv ISCRA AAAUA AECAv

PORTAL DE BELÉM

Que melhor maneira de iniciar o ano com a colaboração do Pe. Georgino. O meu muito obrigado a ele pela colaboração e votos de um bom ano para todos(as) aqueles que me visitam.


PORTAL DE BELÉM

Quem se aproxima do “portal de Belém” com olhos de ver não apenas as aparências, mas a realidade profunda, não deixa de ficar admirado com tanta ternura e carga simbólica: Uma família simples que não é propriamente modelo-tipo de família humana em qualquer parte do mundo, mas apresenta um estilo de vida familiar de valor universal. Um estilo de vida que há-de estar presente em todas as configurações históricas de qualquer família: o acolhimento da vida, o respeito pelo outro, o amor na relação, a ternura nos gestos de comunicação, a solidariedade nas tarefas a realizar, o lar a construir progressivamente, a liberdade crescente articulada com a autoridade exercida, a atenção à individualidade de cada um e a comunhão vivenciada por todos.

O Menino Jesus vê-se aconchegado pelo desvelo de Maria e de José. O seu olhar penetrante projecta-se em sonhos de humanidade feliz em que todas as crianças podem ver nascer o sol com sorrisos de alegria e de esperança.
Maria simboliza a Mãe solícita. As suas mãos abertas – qual berço preparado para acolher a vida nascente – expressam bem a atitude de quem está ao serviço da vida com disponibilidade total em qualquer momento e circunstância.
José é o rosto do homem sério e bondoso. Face aos acontecimentos, vai até onde pode na sua reflexão e deixa lugar à fé que a revelação lhe oferece. A responsabilidade legal que assume perante a sociedade constitui uma luz que se projecta em todos os tempos.

“Levanta-te, toma o menino e sua mãe” é palavra-mensagem que condensa a força simbólica do “portal de Belém”. Para ontem, hoje e amanhã.
Hoje, quantas crianças correm perigo na rua, nas redes de prostituição, nos países em guerra nos lares com violência, nas famílias sem valores dignos da condição humana e cristã, nas escolas redutoras da sua função educativa à simples instrução, nas comunidades eclesiais sem espaço adaptado nem linguagens acessíveis.

O portal abre-se facilmente a quem cultive sentimentos humanos. A fome e a miséria face à abundância e desperdício; a falta de água e de medicamentos perante o consumismo desenfreado, o fanatismo religioso que faz vítimas sem conta, a injusta distribuição dos bens, as famílias desestruturadas, a publicidade sedutora e o patamar social de expectativas que não pode ser correspondido pela magreza dos ordenados e das poupanças.
O mundo exposto ao nosso simples olhar, a par de enormes esforços de alguns e grandes gestos de generosidade de muitos, cria situações de revolta, aumenta as desigualdades e introduz factores de angústia e depressão.

A situação de hoje clama por homens como José que saibam erguer-se e tomar a defesa do Menino e de quantos nele estão retratados; por homens que prefiram correr riscos a continuar na comodidade egoísta; por homens que escutem a consciência mais que os interesses; por homens que queiram viver o amor gratuito, brasão do portal de Belém, o lar da família, a casa do pão.

Pe. Georgino Rocha