terça-feira, dezembro 23, 2008

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Nos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos

10 de Dezembro, 21 horas, Grande Auditório da Reitoria da UA

Abertura 
Coral da Associação Amizade – Associação de Imigrantes dos Países de Leste (Porto)
Lançamento
LIVRO FÓRUM UNIVERSAL – 3 ANOS, 30 IDEIAS – DEBATE SOBRE A ACTUALIDADE
Conferência com
Pedro Jordão, do Centro de Estudos Internacionais
António Eloy, da Amnistia Internacional Portugal
Adriano Moreira, da Academia das Ciências de Lisboa
Moderação: Teresa Soares, da UA:UNESCO
Encerramento 
Danças Tradicionais de Leste

NOTA: Entrada livre

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Banco público português?

"O BPP vai ser salvo por um consórcio de seis bancos (os grandes) que se preparam para injectar 400 e tal milhões no banco que geria fortunas. Ora, estes seis bancos são os mesmíssimos que andam a pedir avais ao Estado. Donde se depreende que também o BPP é nacionalizado, por portas travessas, claro, mas com a garantia do dinheiro de todos.

E o Banco de Portugal já veio dizer que a coisa é para bem da imagem do país. Ó meus senhores, o meu crédito na banca é bastante mais pequenino. A bem da imagem do país, podiam perdoar a coisa. Eu ficava mais desafogado e garanto que não ando a desbaratar o dinheiro em operações obscuras. Só nuns livritos, uns CDs e DVDs, às vezes umas viagens. Coisa menor ao pé do que estes administradores de fortunas fizeram." -- in Cibertúlia

Onde é que eu assino por baixo esta declaração?

Enfim, coisas (vergonhosas e escandalosas) da vida ...

sexta-feira, outubro 31, 2008

[30.X.2008] O Fio do Tempo


Uma pausa,

uma flor!

1. De forma especial estes dias serão dias da memória que nos interpela e da paz que reconforta. Como que os nossos ente queridos (que algures no “tempo” da história de vida nos deixaram) nos proporcionam uma pausa de reflexão e elevação. Se vivêssemos do outro lado do mundo poderiam ser outras as “pausas” propostas, mas no mesmo sentido de acolher uma dignidade da vida humana que deseja continuar, mesmo para além do tempo e do espaço. O desígnio da eternidade, o anseio existencial profundo de quem quer viver para sempre! Quem não o quer?! Ficou gravado, de há bastantes anos, um belo pensamento de Michel Quoist, estudioso sistemático destes assuntos; dizia ele: «Só o amor é capaz de construir para a eternidade!» Simples e grande…

2. Faz parte da boa tradição viva realizar uma pausa no (possível) stress da vida que as sociedades foram “complicando” e, nestes dias 1 e 2 de Novembro, reencontrarmo-nos num gesto de ternura para com os que nos deram a vida e os valores que hoje “transportamos”. Muito acima do clássico discurso das circunstâncias de que “as flores oferecem-se em vida”, e ainda muito acima dos variados excessos que possam porventura existir nestas coisas… cada vez mais, no tempo que vivemos, é preciosa a partilha de um gesto, uma palavra, um sentimento, uma flor, uma vela! Agarremos o que pode unir e motivar à esperança, este um valor que nos vem do infinito e que nos quer conduzir pela via do “amor” generoso que tudo pode resgatar…

3. Esse recolhimento, rico de memória e em paz, faz-nos mesmo apreciar o essencial da vida, muito acima de todas as mil coisas. Teresa de Calcutá dizia que «um dia seremos considerados não pela quantidade de coisas que fizemos mas pelo amor que colocamos naquilo que fazemos.» Não é pela quantidade nem pelo discurso; serão a qualidade de sentido de vida como serviço a escola do futuro absoluto. Disse-nos Ele, Alfa e Ómega, que não há fórmulas… Cada flor signifique essa procura!

quinta-feira, outubro 30, 2008

POLITICA FAMILIAR, UMA HIPOCRISIA

O que se está passando entre nós, em relação à instituição familiar, no plano legal, com graves e inevitáveis repercussões na vida pessoal e no plano social, é, a meu ver, a mancha mais negra e vergonhosa da nossa história recente. Não serão precisos muitos  anos para que os fautores desta vergonhosa façanha o verifiquem, porventura sentindo então as dores, na sua carne e na dos seus, do que fizeram, de modo inconsciente ou condenavelmente premeditado.

Trata-se de uma verdadeira politica de hipocrisia. Advoga-se por leis, despachos e portarias que as crianças institucionalizadas e os doentes mentais retidos em hospitais devem ser entregues à família, sem se verificar se ela existe e tem consistência e capacidade para assumir essa responsabilidade e consequentes tarefas; retira-se a criança à família que a criou, desde os primeiros dias, para a entregar àquela que a rejeitou ainda antes de ela nascer; fala-se do valor da adopção e paralisa-se o desejo e a vontade de adoptar num emaranhado de burocracias e papéis que mais levam a desistir que a confiar num êxito, ainda que remoto; aceita-se e até se diz, teoricamente, que a família é o melhor espaço e ambiente para educar uma criança, mas criam-se condições legais que a destroem ou a isso dão pretexto e ocasião, privilegiando-se os caprichos pessoais, a falta de esforço normal para ultrapassar dificuldades, menosprezando assim o direito de quem acredita na família e se sente vítima ultrajada dos que a vilipendiam; o divórcio, cada vez mais fácil, é prova de modernidade e de progresso social, sem que se tenha em conta a repercussão desta facilidade em muitas vidas atingidas pelo favor de leis que mutilam a dignidade das pessoas e as libertam de responsabilidades pessoais e sociais; para se apoiarem formas estranhas de casamento, os casos pessoais ganham um direito de cidadania que os sobrepõem a tudo e todos, não se procurando o respeito que a todos é devido, segundo a sua situação e o interesse comum e, a pretexto de igualdade, faz-se um nivelamento que não conta com as naturais desigualdades; sem se olhar à sanidade e ao futuro da sociedade, ridiculariza-se a família normal e o seu direito e dever de procriar, importando-se acriticamente e implementando-se, por força de uma maioria parlamentar, o pensar de estranhos que nunca acreditaram na família, porque nunca saborearam o seu verdadeiro valor e beleza; durante o dia, o Estado considera-se dono das crianças, confia-as a quem não aceita tal principio, satisfaz-lhes os gostos e aguenta-lhes os caprichos, para, ao fim da tarde, as despejar, caprichosas e frenéticas, nos braços de pais cansados e preocupados e, ai deles, se lhes puxarem uma orelha ou lhes derem uma merecida palmada, pois terão de se haver com a justiça; sem ouvir os pais, mas entalando-os com decisões posteriores a tomar e envolvem encargos, dão-se computadores às crianças que, muitas vezes, em suas casas, não têm resposta possível para as suas maiores necessidades; no direito à educação escolar e à escolha dos projectos educativos os pais não contam e, se ousam contar, são escandalosamente penalizados…A ladainha pode continuar, que não parará logo ali.

Na mente de quem legisla e de quem governa o país parece que a família é mesmo para acabar. Só traz incómodas a quem quer ser livre e encargos ao erário público. E se ela ousa ter quatro ou mais filhos, paga por esta ousadia, porque para muitas destas mentes brilhantes que detêm o poder, mais de dois filhos é prova de insanidade mental.

Não escondo nem calo que há medidas a favor da família, mas muitas destas mais preocupadas com o pensar dos estranhos que com a resposta as necessidades. As estatísticas e os relatórios dão números não mostram rostos nem transmitem dores. E, quem está bem, não entenderá facilmente as carências de muitas famílias que também pagam impostos e já lhes falta voz para clamarem pela justiça a que têm direito.

D. António Marcelino, Bispo Emérito de Aveiro

terça-feira, outubro 28, 2008

Parabéns Filhote

Faz hoje quatro lindos anos que pelas 18h14m, nascia a criatura mais linda e mais adorável à face da terra! Para mim claro!
Falo do meu filhote, o meu Afonsito, o meu anjinho como lhe costumo chamar!
Hoje quero agradecer a Deus:
pelo dom da vida. 
pelo dom do amor incondicional que sinto ao olhar para ele quando adormece.
pelo dom da felicidade que é estar com ele.
pelo dom de chorar de alegria, quando por exº,tinha ele ainda dias de vida e ao sorrir para mim, senti o sorriso de Deus...
Obrigado Senhor, pelo meu filho.
Obrigado Gaby, por seres a mãe do meu filho!

Deixo-vos também este texto que hoje, por acaso li num blog e senti que "alguém" me estava a querer dizer alguma coisa, dado que fui para ao blog não sei bem como!

Enfim, como costumo dizer, coisas da vida ...


"Num mundo melhor, todas as famílias aprenderão com as crianças. Você tem muita pressa de as ensinar. Ninguém parece aprender com elas, e elas têm muito para lhe ensinar.
Só porque é mais velho e poderoso começa a fazê-las iguais a si, sem sequer pensa no que é, onde chegou, qual é o seu
status no mundo interior. Você é um pobre; e também quer o mesmo para o seu filho?
Mas ninguém pensa; caso contrário, as pessoas aprenderiam com as criancinhas. As crianças trazem muitas coisas do outro mundo porque são recém-chegadas. Transportam o silêncio do útero, o silêncio da própria existência."


OSHO

sexta-feira, outubro 24, 2008

Anúncio no 'Correio da Manhã'


Um pouco de humor!
Enfim, coisas da vida ...



Anúnicio colocado no Jornal "Correio da Manhã"

PRETA E SOLTEIRA

Procuro companheiro macho, a origem étnica não é importante. Sou muito boa fêmea e adoro BRINCADEIRAS.
Gosto muito de passeios nas matas gosto de andar de jeep, de viagens para caçar, acampar e pescar, de noites de inverno aconchegadas junto à lareira. Jantares à luz de velas fazem que vá comer-lhe à mão. Quando voltar acasa do trabalho esperá-lo-ei à porta, vestindo apenas o que a natureza me deu. Telefone para 218756420 e pergunte pela Micas. Aguardo notícias suas...

RESULTADO DO ANÚNCIO:
Mais de 15.000 homens deram por si a telefonar para a Sociedade Protectora dos Animais - Secção de Caninos....

[23.X.08] O Fio do Tempo




A «situação

espiritual»

1. Recentemente chegou-nos às mãos a colectânea das conferências da Conferência Gulbekian que de 25 a 27 de Outubro de 2006 assinalou os 50 anos da Fundação. O pertinente e corajoso título, «que Valores para este Tempo?» trouxe a Portugal nomes grande da reflexão actual. Por trás da idealização da iniciativa, vale a pena apercebermo-nos da reflexão do grande e reconhecido pensador que foi Fernando Gil (1937-2006), entretanto falecido, não chegando a participar no congresso que fora convidado a preparar. Começava deste modo a reflexão de abertura de Fernando Gil: «Perante a angustiante “situação espiritual do nosso tempo”, diagnosticada há muitos anos por Max Scheler (1774-1928) […] parece oportuno interrogarmo-nos sobre o que se pode chamar, sem exagero, uma crise geral do sentido.»

2. Ideias estas tão importantes que, numa busca de coerência, nos farão reflectir, nos vários níveis de pertença social, sobre as necessárias interrogações. Não como quem paralisa na dúvida, mas como quem a sente viagem de descoberta. Se formos pela rua fora sobre o que se pensa da “situação espiritual” do nosso tempo arriscamo-nos a ser surpreendidos com posições que podem tocar, de um lado ou de outro, um certo extremismo de posições; como reacção crítica ou como aceitação acrítica. No fim de contas, e para que a vida tenha sentido, a busca de sentido é a tarefa mais importante da vida. A asfixia espiritual, por determinados conceitos ou preconceitos (?), continua a ser o reflexo dos fechamentos que são sementes de exclusão e intolerâncias. É urgente refocalizar o centro dos debates…

3. Uma dinâmica, como que sem contraditório, faz com que quanto menos se reflecte menos apetece pensar e reflectir. As faces técnicas e “fazedoras” da vida não darão as respostas essenciais ao nosso tempo, somente as respostas instrumentais. Não deixemos que o ser humano se instrumentalize ou ‘subjectivize’. Há tempo e lugar?

terça-feira, outubro 14, 2008

O Arquipélago da Insónia

Deixem-me oferecer-vos uma entrevista surreal e completamente viciante!
A peça a que me refiro, foi da SIC Notícias e o entrevistador é o fantástico Mário Crespo entrevistando um homem que a cada dia que passa admiro mais - António Lobo Antunes.
Peço-vos que já que aqui chegaram reservem uns 33 minutos da vossa vida para sentados e com os ouvidos bem abertos sintam o carinho e a qualidade que este fantástico escritor fala sobre a morte, as alegrias, as tristezas, enfim ... diria mesmo, ele fala sobre a vida.
Digo-vos uma coisa, eu ouvi e voltei a ouvir, retirando expressões que ele pronuncia completamente fantásticas ... só para vos exemplificar:
Aquela em que ele se refere ao pai na medida em que ele é a defesa da sua própria vida, isto é,  a linha que o separa da morte!

Enfim, coisas da vida ...

cliquem aqui para aceder ao vídeo completo


segunda-feira, outubro 13, 2008

[13.X.08] O Fio do Tempo

O significado

de Família

1. Uma das questões que salta à vista nos debates sobre as pretendidas alterações legislativas para o casamento de pessoas do mesmo género é a confusão, que faz despertar a urgência, em se considerar o que é a família ou o que não o é. O aliciante táctico das temáticas ditas de fracturantes, chamando de modernidade a cada nova fractura, é o novo aliciante de algumas convicções políticas. Por trás dessa modernice está o pano de fundo ideológico da rasgada “liberdade” em desprestigiar, quando não até ridicularizar, tudo o que tem o nome de tradicional. Nas modas, novelas e cinemas, a família, comunidade primordial, sofre as maiores afrontas…

2. Chamar-se intencionalmente de «família tradicional» à família de sempre será o maior engano que se vai multiplicando. Também é estratégica a colagem à noção única de família de outras formas de contratos (ou mesmo sem estes!). Encostando-se à família como comunidade vital e consagrada, reivindica-se um conjunto de direitos (afastando-se os deveres) para assim conseguir levar a água ao moinho, até no plano legal. Se todas as formas de vida merecem o saudável e tolerante respeito, todavia, todas as opções, eticamente, quererão ser aprofundadas à luz da consciência e dignidade humana, e não ser trampolim ideológico-político ou bandeira de generalização social.

3. A família com o pai, mãe, filhos, filhas, netos, avós, tios, merece hoje uma forte apologética em sua defesa, para o bem social. As novas formas que esquecem a diversidade (até de género) são já o reflexo da ausência em fechamento das complementaridades, facto que empobrece o ideal da experiência humana. Os tempos sociais são de não pensar muito e de juntar tudo no mesmo saco, e puxar pelo nome família para reivindicar direitos. Salvo o devido respeito, em consciência recta, não será por aqui que o tecido social conseguirá garantir um conjunto de princípios e valores insubstituíveis às comunidades… A caravana passa!

Alexandre Cruz

quinta-feira, outubro 09, 2008

Os casamenteiros

O Parlamento vai votar a formação de pares homossexuais. É uma perda de tempo só oportuna para quem não queira discutir problemas reais do país. Há muito que pares homossexuais são banais no quotidiano nacional. Não sendo a sua existência controversa, tentar impor um "casamento" homossexual à ordem jurídica é ilógico.
Encarado sem sofisma ou oportunismo ideológico, esse "casamento" é um acto tão cheio de contradições que se vai anulando à medida que o analisamos. Se como acto biológico não faz sentido, contratualmente é desnecessário e socialmente é perigoso. O perigo está na afronta às entidades originais do corpo social que desde sempre tem constituído a base das civilizações.A sociedade humana é formada por células familiares mono ou poligâmicas, patriarcais ou matriarcais, mas todas elas com um elemento comum. A presença essencial dos dois géneros da espécie.
A humanidade sempre manifestou consciência de que a sua existência depende da estabilidade de núcleos com capacidade reprodutiva. Por isso, bem ou mal, por via religiosa, jurídica ou consuetudinária, se tenta desde sempre contratualizar as relações entre sexos opostos de modo a garantir-lhes uma existência duradoura que promova a estabilidade da própria sociedade. Os entendimentos de como essa segurança pode ser conseguida ainda hoje variam de região para região, do mesmo modo que têm mudado através da história.
O que tem sido omnipresente é uma preocupação social com a manutenção da parceria sexual organizada com potencial reprodutivo, logo, envolvendo os dois géneros. A essas uniões essenciais, sempre se chamou casamento. É importante desiludir todos aqueles que queiram ler aqui um manifesto contra a homossexualidade. Não é. Tão-pouco preciso de tornar público se tenho ou não tenho no meu convívio íntimo pessoas de orientação sexual variada ou qual é a minha própria orientação sexual.
Nesta discussão não está em causa a respeitabilidade de pessoas nem a liberdade de opções. É a base do edifício social que está a ser posta em causa na tentativa de adulterar o seu elemento mais importante com experimentalismos.Nada há na norma constitucional ou jurídica que obste à formação de um par homossexual (ou uma tríade, porque não). Se quiserem contratualizar garantias patrimoniais podem fazê-lo nas actuais molduras legais. É possível adoptar sem casar. Mas se o casamento é muito mais do que um mero objectivo procriativo, ao excluir "ab initium" a procriação da unidade conjugal como, por força da natureza, aconteceria nas uniões homossexuais, está-se a torná-lo em qualquer coisa que o faz deixar de ser.
Se há ambiguidade nesta área, desfaça-se.
Reafirme-se o que sempre foi entendido como casamento, que é a união formal entre uma mulher e um homem. Experimentalismos façam-nos criando uma entidade nova para diferentes uniões que até poderão vir a estruturar sociedades futuras, mas que nada têm a ver com o casamento. No presente, destruir a natureza cultural, tradicional, biológica e social do único instituto que garante a continuidade de tudo numa sociedade, amputando-lhe a especificidade e alargando-o a conceitos que a sua génese natural nunca contemplou, nem é progressista nem liberal, é absurdo.

Mário Crespo - Jornalista

quarta-feira, outubro 08, 2008

[08.X.08] O FIO DO TEMPO


Escutar e agir a «Palavra»

1. Está em realização, em Roma, o Sínodo dos Bispos dedicado à «Palavra de Deus». O encontro mundial dos líderes das comunidades cristãs das Igrejas locais, também com participantes da comunidade judaica, é um acontecimento eclesial preparado e abrangente. Bem interpretar, aprofundar o sentido, sentir a «Palavra» como elo gerador de laços de verticalidade e horizontalidade, é dinamismo essencial que, pela sua riqueza, se manifesta em ecos sociais como pluralismo, tolerância, construção de paz. Nesta linha, cumpre apreciar o sentido da escuta sempre mais apurada em diálogo com os «sinais dos tempos», uma procurada rica vivência teológica.

2. É um facto culturalmente incontornável que a experiência de Abraão (há sensivelmente 3850 anos), como atitude itinerante de procura de sentido para a vida, marcou também a essência das raízes do Ocidente, com valores que se foram aprofundando e abrindo no sentido da liberdade histórica com códigos comuns em Moisés (cerca de 3250 anos a.C.) e na unidade comunitária ideal conquistada pelo Rei David (há 3000 anos). Se hoje falamos de dignidade humana em democracia, e das noções a elas pertencentes como a paz, fraternidade, justiça, amor, toda este conjunto de valores referenciais das sociedades actuais têm na viagem bíblica também a sua alavanca significativa.

3. As Mensagens e os Valores não são um dado instantâneo, como se fosse um processo «dois em um». Precisam de ser aprofundados, meditados, reflectidos. Apagar a memória histórica que nos precedeu e garantiu a preservação de um conjunto de valores e princípios será a mesma coisa que deitar a perder o tesouro dos pilares de um edifício. Acreditar que «tudo o que sobe converge» (Teilhard de Chardin) ajudar-nos-á a compreender que neste caminho não há dictomias, barreiras, mas complementaridades. Refrescar-se na «Palavra» superior (de Deus), quer significar subir em existência!

segunda-feira, outubro 06, 2008

Falar em Igreja

De tempos a tempos, surge em público a questão sobre se a Igreja em Portugal deveria ter ou não um órgão nacional na imprensa para funcionar como voz oficial, que deixasse claras as posições da hierarquia católica a respeito dos mais diversos temas da actualidade, permitindo também esclarecer falsidades ou deturpações lançadas noutros meios.
Deixando de lado o facto – relevante – de não existirem Igrejas “nacionais” no nosso mundo católico, a grande questão passa, mais do que pela existência de um ou de centenas de meios de comunicação social, pela centralização de posições e opiniões num número restrito de pessoas, por mais responsabilidades que tenham, algo que acaba por parecer um contra-senso numa sociedade cada vez mais aberta ao pluralismo e a novos protagonismos.
É verdade que nem todos podem falar em nome da Igreja, mas é curioso notar que, quando se quer saber a posição católica sobre determinado tema, só se assumam como possíveis interlocutores os seus Bispos ou, no máximo, um ou outro sacerdote mais mediático. A Igreja não pode falar sobre a crise em Wall Street? Ou sobre alterações legislativas em curso no nosso país? Ou sobre a onda de criminalidade que enche os ecrãs e as páginas dos jornais?
Pode e deve, parece ser a resposta mais óbvia. O que não parece lógico é que se peça sempre aos mesmos que falem de tudo, do futebol à economia, da política à justiça, da cultura às novas tecnologias.
Em Fátima, nas Jornadas Nacionais das Comunicações Sociais, o Bispo de Coimbra deixou um apelo directo a todos os baptizados: é preciso “dar a cara”. Em especial, pediu aos jornalistas que se assumam como vozes católicas no meio do barulho mediático, reagindo quando for oportuno às pequenas e grandes provocações que a altivez (e ignorância) de muitos vão lançando de forma indiscriminada e, quase sempre, pouco fundamentada.
Falar em Igreja é, afinal, falar como comunidade e não como um mero espectador desiludido com o desempenho da sua equipa, mas impossibilitado de entrar em campo. Independentemente dos meios existentes – e os novos tempos da Internet permitem uma diversificação cada vez maior -, o problema da ausência de voz e de vez persistirá enquanto os católicos não se sentirem comprometidos nesta causa, procurando e oferecendo informação quando forem chamados a isso.

Octávio Carmo

sexta-feira, outubro 03, 2008

quinta-feira, outubro 02, 2008

[02.X.08] O FIO DO TEMPO

EUA: o plano de fundo(s)

1. O mundo estava em suspenso. A campanha dos candidatos à presidência americana ajudou à aprovação do plano da injecção de 700 mil milhões de dólares no chamado mercado monetário. Astronómico! É uma realidade impressionante o encadeamento ao jeito de dominó da economia do mundo nos sistemas americanos. Uma mega-dependência construída nos últimos dois séculos, também na fronteira dos valores da “liberdade” (das pessoas aos mercados), que quase ninguém quer assumir verticalmente mas que quase todos vivem no dia-a-dia. O dinheiro, como dizem os analistas, está injectado; mas a reflexão do plano de fundo é a tarefa mais urgente a ser realizada.

2. Com certa ironia, mesmo que subjectiva, os americanos falam de si mesmos como se fossem o mundo. Os “outros” ficam…! O Senado aprova o plano para tranquilizar o povo dos Estados Unidos, mesmo sabendo-se que essa tranquilidade é transnacional, mundial. Quando a água acalmar proximamente, de facto, observar-se-á a pequenez que somos para os persistentes endeusamentos das várias ideologias, até das ciências económicas. Quantas afirmações referidas, pensamentos ditos, sentenças proclamadas de pânico diante do desabar das pretensas, mas ilusórias, seguranças. Mesmo exaltando-se a «confiança» como valor, todos espelha(ra)m a desconfiança extrema.

3. As coisas são como são. Já que deste modo a América toca todo o mundo (ainda que segundo alguns no requiem diante dos novos mundos asiático e sul-americano), já que a sobrevivência do Ocidente e da Europa (realista) precisam mesmo dos EUA, então que se concretize a reflexão ética mundial urgente sobre qual o papel das economias nas sociedades actuais. O plano não pode ser um remendo. No pano de fundo continuam a pairar as mesmas incertezas das concepções injustas. Seja hora dos sábios! Não dos que produziram a crise, mas dos que a pagam.

[Alexandre Cruz]

quarta-feira, outubro 01, 2008

[01.X.08] O FIO DO TEMPO

Dar lugar à Música!

1. Se formos a pensar bem o que representa a música como património, aspiração e mesmo projecto de Humanidade, ficamos sempre com um amargo de boca ao assinalarmos o dia 1 de Outubro como Dia Mundial da Música. Diz-se que saber música é importante mas, de facto, dá-se-lhe pouco lugar. Em Portugal, ser músico, como ser artista, é uma luta pela sobrevivência. Os génios salvam-se sempre, mas o corpo médio dos músicos onde depois brilharão as estrelas, padece da ausência de apostas firmes, sérias e programáticas. Um pouco por todo o país, heroicamente, vão sobrevivendo as bandas musicais e algumas orquestras; são muitas as colectividades que pela música conseguem juntar populações dispersas, a partir dos valores e sensibilidades musicais.

2. Volta e meia destaca-se que até para aprender matemática a formação musical é um trampolim surpreendente. De quando em quando salienta-se a «educação artística» como chave de desenvolvimento dos povos, a partir das matrizes das culturas. Mas sente-se que a música, como outras áreas artísticas, estão claramente na periferia; se houver tempo, completa-se o “mapa”…! A era actual é a da ansiosa procura das tecnologias, deitando a perder as Humanidades e as Artes. Por isso vamos ficando mais pobres… Ainda assim, simultaneamente, brota algum despertar estimulante para cenários que virão em que será a riqueza das diversidades culturais, artísticas e musicais, o maior emblema dos povos…

3. Como trazer para o “centro” dos sistemas educativos a área artística e musical? Como elevá-la a ponto de a considerar insubstituível na formação das novas gerações? Não chega o remendo... Há inteira compatibilidade entre a fronteira das tecnologias de ponta e um humanismo que sensibilize a comunidade humana para os valores artísticos… Ou não será que tocar numa orquestra não dá espírito de equipa, estética e ética?!

[fonte da imagem]

terça-feira, setembro 30, 2008

[30.IX.08] O FIO DO TEMPO

A consolidação do ser cultural

1. Talvez nunca como hoje as mobilidades desinstalam aquilo que se julgavam ser os públicos e as práticas garantidas. Os vários níveis, pessoais e institucionais, de pertença são desafiados à renovação contínua, sem que com isso se perca aquilo que pode ser «a “ponta” por onde se lhe pegue». É uma virtude imensa a vasta rede de solicitações, das reais às virtuais; mas, tantas vezes, com pena, sente-se o perder de ponte com as memórias essenciais... A coragem da adaptação aos novos cenários, da autocrítica como quem procura antever o futuro, a mudança renovadora como atitude contínua, serão alguns dos ingredientes capazes de unir no presente a memória da história ao desejado futuro humano cultural.

2. Toda a gama mais variada de instituições comunitárias debatem-se com esta problemática. No início de cada ano projecta-se e inscreve-se como objectivo um maior investimento nas redes de relacionamentos (família, escola, sociedade, trabalho), procurando uma maior pertença e participação. Na decorrência das profundas avaliações realizadas, erguem-se propósitos que quererão consolidar as ideias e as práticas de que somos seres culturais e que sem «cultura» activa e participativa acabamos até por ficar a anos-luz do melhor lema de vida, esse que conduziu os grande sábios que nos ajudam a pensar. Da ampla abrangência a ponto de quase-tudo ser cultura, valerá a pena o esforço de focalizar-se em algo que, ainda que não esteja da moda, seja enriquecedor e fortalecedor das raízes que darão fruto comunitário.

3. Se há sector que, no fundo, não deveria sofrer qualquer crise financeira deveria de ser a proposta cultural. Porque esta pode ajudar à redescoberta de soluções viáveis e representa o investimento mais significativo, mesmo em educação, para sermos comunidade que aprecia e valoriza o património que temos, para mais nos estimarmos e engrandecermos no património que SOMOS. Está nas mãos de todos?!

[
Alexandre Cruz] imagem

quarta-feira, setembro 24, 2008

[23.IX.08] O FIO DO TEMPO

Nas raízes da inovação

1. Como tantas outras, «inovação» pode ser palavra gasta. Há mesmo já quem diga inovar a inovação. Para além dos malabarismos da linguagem, importa aprofundar a atitude inspiradora. No contexto do início de ano escolar, esta capacidade de sermos parte das soluções merecerá nota de louvor. Este ano a Lição de Abertura da Sessão Solene da abertura do Ano Académico da UA contou com a presença do Presidente Executivo da Portugal Telecom SGPS, SA, Eng. Zeinal Bava. A temática da comunicação era: «A inovação como chave do sucesso». Podendo ser hoje esta uma temática de lugar-comum, valerá a pena, acima de outros aspectos e mesmo dos naturais prós-e-contras que existem em tudo, destacar duas ideias fundamentais.

2. Quando Zeinal sublinha que «uma equipa é sempre mais inteligente que uma pessoa sozinha» acentua uma tecla essencial que tem sido um dos parentes pobres da mentalidade portuguesa. Ao destacar que, mais que os mecanismos de retorno da satisfação do consumidor, o ideal será que este tome parte da solução inovadora a encontrar, representa uma sintonia empática de inteira correspondência entre o que se oferece e o que se procura. Muito acima dos patamares meramente comerciais, vale a pena destacar as potencialidades criadoras do trabalho em grupo, pois até é bem mais fácil uma pessoa escrever um livro sozinha do que gerar um trabalho de plataforma em «rede» entre diversas áreas e saberes. Também as noções de retorno, auscultação, como processo criador merecem mais atenção…

3. Claro que tudo é aprendizagem, mesmo a inovação. Esta não cai do céu, precisa mesmo da capacidade de «arriscar» para acertar. Também este é um processo de sabedoria tão importante. Porque não criar-se mais hábitos de gente de diferentes áreas e estruturas sentarem-se à mesma mesa? Seria surpreendente!

[Alexandre Cruz] imagem: pt inovação

segunda-feira, setembro 22, 2008

[22.IX.08] O FIO DO TEMPO

O tempo do regresso

1. O retomar das actividades impele-nos ao reerguer de projectos. Nos cenários de um surpreendente mundo em convulsão transformadora, e em que não podemos fugir dele mas actuar renovados nele, o estabelecer de objectivos ambiciosos que consigam gerar pontes de cooperação na busca de soluções é, hoje, uma claro sinal da necessária e inspirada procura revitalizadora. O mundo está como os humanos o fazem. E diante dele sempre houve, pelo menos, duas tentações: a cómoda “fuga ao mundo” típica de quem julga ter adquirido já a verdade plena, como se ela não existisse para o aperfeiçoamento comunitário; ou o diluir-se de tal modo no mundo perdendo a força crítica, afogando-se no conformismo, no deixar andar, no não vale a pena.
2. O retomar dos vários níveis de actividade, como a função educativa do aprender escolar, a missão política de servir o bem-comum, as propostas de sentido de vida das igrejas, os projectos de concertação social, humanitária e cultural, os novos programas das grelhas televisivas, os futebóis, as músicas, os espaços comunitários, tudo o que se move e pode mobilizar para uma sociedade melhor, especialmente em tempos de apregoada crise, em todos os recantos teria sentido fazer aquela “pausa” que pode gerar objectivos nobres em ordem a sermos, pelo menos, melhor Humanidade. Tudo porque a sabedoria e a bondade educativa que dessa pausa provém também pode ser antídoto inspirador para tantos dos males sociais.
3. Após a pausa veraneante, chegado o Outono, retomamos. É o sexto ano, agora com outro nome: «o fio do tempo». Depois de alguns anos com «Universalidades» e o ano passado com a «Linha da Utopia», agora avançamos sobre «o fio do tempo». Não o metereológico! Mas sobre os sinais do tempo actual. Único, todos actuamos nele!

Alexandre Cruz 22.09.2008

(nota: Saúdo com alegria o regresso à análise da sociedade e do mundo por parte do meu amigo Alexandre Cruz, um olhar interessante e sempre atento.)

quinta-feira, setembro 11, 2008

As férias já eram ...

Amig@s após a minha ausência, mais do que natural, para férias volto com um artigo escrito por um dos blogues que mais aprecio, o do jornalista Miguel Marujo. A sua maneira de escrever e de pensar revela-se muito inteligente, indo na sua maioria das vezes ao encontro daquilo que penso sobre o mundo e a sociedade portuguesa.
Sinceramente, apreciei muito este seu texto e daí ter escolhido como post de "reentré".
Leia-no e comentem se acharem que vale a pena.
Enfim, coisas da vida ...


Os vencidos do catolicismo

A expressão para este post prometido tomo-a de João Bénard da Costa, que algures nos anos 90 contou no Independente (e depois em livro) o desencanto com a Igreja do seu tempo que o levou a sair, vencido. Hoje, lendo muitas das suas crónicas de viagem e de cinema redescobrimos partículas de Deus, que parecem ganhar ao Bénard que saiu vencido pela instituição.

Hoje, haverá quem se afaste e saia por motivos semelhantes (não escrevo iguais: as épocas, o contexto, são outros). Porque não gosta do que se diz sobre a moral sexual, sobre os divórcios, sobre o aborto ou a participação política. Sobre isto e aquilo. Também há mesquinhez deste mundo. Por causa do padre que não deixa fazer o bailarico ou porque mete dinheiro ao bolso. Por causa do bispo que não vem à paróquia há meses. Eu, por mim, aqui vou despejando mais as minhas fúrias que alegrias. Mea culpa. Mas as fúrias metem-me mais a pensar, as alegrias preferem-se vividas (em tempos de MCE falávamos da importância das pequenas grandes coisas, aquele trabalho discreto que não se alardeia, o gesto que se tem sem pedir recompensa...).

Quando
escrevi uma dessas fúrias, houve quem lesse ali sinal de uma estóica resistência ou, eventualmente, palerma teimosia em permanecer. Tenho amigos, católicos, que acham que quero vincular a Igreja a este tempo e a este mundo, e que não pode, ser porque estas coisas (dos divórcios, uniões de facto, aborto, ordenação de mulheres,... e esta misturada faz-me azia, por serem coisas tão diferentes, cheias de cinzentos, nada a preto e branco) são conjunturais e a Igreja move-se à velocidade de 2000 anos, necessariamente lenta, até imóvel, mesmo que esqueçam (eles) que houve Vaticano II - e não as minhas ideias pequenas.

Do outro lado, há uma preocupação de muitos não crentes e ateus (veja-se o
Diário Ateísta, que é mais um blogue anticatólico/cristão/religioso, e que prefere o insulto à discussão, do que de defesa do ateísmo) pelas coisas eclesiais, que chega a raiar o absurdo, quando se põem a discutir o documento vaticano sobre a forma como celebramos a Eucaristia: se um católico escrevesse todos os dias sobre o modo como se organiza o PCP ou a Associação República e Laicidade, apontando-lhes maneirismos, anacronismos ou o apoio a ditaduras, inquisições dos tempos modernos, que responderiam eles?... Mandavam-nos para a sacristia.

Outros ainda pensam,
como Joana Lopes, que por causa das minhas fúrias estarei em rota de colisão: «(...) se optarem um dia por sair, façam-no devagar, sem bater de portas e vão ver que não custa assim tanto. Mas se decidirem ir ficando, então coragem – só isso. Não me apetece discutir assim: custaria muito sair, porque a minha pertença à Igreja não é posta em causa pelos padres tontos ou de bispos menos razoáveis. Nós somos Igreja, tanto como o patriarca ou o Papa, como o João César das Neves ou o João Seabra. Dizia um amigo, perante o elogio exterior, "mas vocês são católicos progressistas", terrível ideia, que "não, nós somos da mesma Igreja do cardeal ou dos que se ajoelham em Fátima". Mas a minha fé, esta fé, vive-se de modo diverso, vive-se no instante que é sentirmo-nos próximos do abismo na basílica de Assis ou na Capela Sistina. Aí, ou nos Picos da Europa ou no pôr-do-sol de Inhambane, ou na hora da morte estúpida e inesperada de um amigo. Não são os pecados da Igreja que me fazem correr dela, cansar dela, fazem-me antes querer continuar a pôr em cada coisa que faço solenidade e risco, como escreveu Sophia.

A coragem em ficar é tão grande como a dos que andam fora. Apetece dizer. Hoje, quando nos dizemos católicos, parece que nos aturam enquanto batemos também nos bispos, em Roma ou na beata. Não passa por isto a minha fé. Não sou um vencido, mas também não entendo que se diga, que se
escreva, «há, em Portugal, muito mais intolerância e fundamentalismo religioso activo do que talvez se pense». Os exemplos são os do costume, mas também há dados novos: «Mas esse fundamentalismo obscurantista, e o intolerável moralismo que lhe está sempre associado, existe e aparece agora muitas vezes sob a capa de associações e ONG's beneficentes. Continua a minar este país, o profundo e o urbano, com grandes danos e muitas consequências.» Não percebo se se fala da tremenda acção social da Igreja, que em alguns casos, demasiados casos, está onde o Estado português nunca esteve.

Mas menos entendo o uso de palavras como "fundamentalismo obscurantista". É, para mim, tão obscurantista os fundamentalismos trauliteiros de muitos católicos desta praça como agora achar que os ateus detêm a verdade e só eles viram a luz, numa evangelização fundamentalista do espaço público, do País, em que no fundo querem acabar com os católicos, os crentes. No fundo: acabar com a diferença, com quem pensa e vive de modo diverso. Sem tolerância.

artigo de Miguel Marujo em Cibertúlia
imagem fonte: Agência Ecclesia - João Bénard da Costa

quarta-feira, agosto 13, 2008

'Reality show' para converter ao cristianismo

Deixo-vos somente com esta notícia um tanto ou quanto estranha, não acham?
Continuação de boas férias.
Enfim, coisas da vida ...

Programa controverso do reverendo George Hargreaves

O tema é, no mínimo, polémico. O Channel 4, no Reino Unido, está a emitir um reality show com um conceito controverso: converter os participantes ao cristianismo, noticia o El Mundo. O programa, intitulado Make Me a Christian ("Torna-me cristão", em português), é da responsabilidade do reverendo George Hargreaves, que considera que o país está em declínio moral. Por isso, vê este programa como uma forma de voltar a instituir os valores entre os britânicos. O formato, dividido em três partes, vai contar com um grupo de participantes que deixaram as suas vidas quotidianas para trás para se converterem ao cristianismo.

Com a Bíblia como base de todo o programa, o formato desafia pessoas dos mais diferentes quadrantes. Os participantes - nenhum cristão - têm perfis considerados um pouco invulgares: um ciclista tatuador e ateu; um jovem que foi educado no cristianismo e que agora tem uma namorada que está grávida de dez semanas; um agente de dança que é "viciado" em comprar sapatos de marca; um casal que dedica pouco do seu tempo aos filhos; um homem de 20 anos que, sem conhecimento da namorada, sai à noite para estar com outras mulheres, e uma lésbica que ocasionalmente também se envolve com homens são os concorrentes.

O programa começou por levar os participantes a uma catedral com mais de mil anos de existência, onde celebraram uma eucaristia. De seguida, regressaram à cidade de Leeds, de onde são naturais, e foi- -lhes oferecida uma Bíblia, que têm de ler todos os dias.A vida diária dos concorrentes é depois acompanhada, nas suas casas, e os seus estilos de vida serão cuidadosamente analisados pelos representantes do reverendo Hargreaves. De acordo com a vida de cada um, recebem instruções sobre a melhor forma de viverem como cristãos e as câmaras de televisão comprovam se os participantes seguem, ou não, essas indicações. A título de exemplo, aos pais demasiados ocupados, ser-lhes--á pedido que passem pelo menos 15 minutos com cada um dos filhos, enquanto que à participante lésbica os representantes do reverendo sugerem que deite fora todas as imagens explícitas que tenha.

Este não é um projecto pioneiro. O mesmo canal já realizou o formato Make Me a Muslim ("Torna-me muçulmano"), em que seis participantes viveram de acordo com a religião islâmica. Resta saber se os concorrentes vão seguir uma vida cristã ou voltarão aos velhos hábitos.

in
Diário de Notícias online

sexta-feira, julho 25, 2008

Até Setembro ...

Fiquem com esta que agora só em Setembro me põem os olhos em cima ...
Já agora, umas boas férias com descanso e tentem fazer aquilo que durante o ano não fazem, pode ser?
Lêr um bom livro,
umas visitas culturais,
visitar amigos e familiares distantes,
estar com amigos e fazer umas "patuscadas",
ir ao cinema,
fazer umas caminhadas por montes e vales,
dar uns bons e relaxantes mergulhos neste imenso oceano,
namorar,
conversar,
brincar muito,
encontrar o fundamento da nossa vida naquele que por nós se entregou até ao fim,
em suma:
descobrir o amor de Deus nas coisas da vida !

fiquem bem
Enfim, coisas da vida ...

quinta-feira, julho 17, 2008

CULTURA DE ESQUERDA! O QUE É ISSO?

A teimosia em querer pôr a direita e a esquerda como único critério e referência de tudo ou quase de tudo o que socialmente se é e se vive, denuncia, a meu ver, uma manifestação de pobreza sem resposta e uma miopia social que se vai tornando, em muitos casos, praticamente incurável. Coisa de velhos, não necessariamente de idade, que já pouco mais sabem raspar no fundo do tacho. Daí não sairão senão restos de um esturro fedorento ou de comida requentada.
Apareceu depois o centro a dividir espaços, como que a tentar equilibrar a nomenclatura tradicional e tornar-se alternativa ou terceira via à teimosia dos marrões, que deixaram de olhar para a frente para gastarem tempo e energias a olhar para o próprio umbigo. Também não se vai longe por aí.
Direito, esquerdo, será sempre o ritmo monótono de um marcar passo, por vezes sem sair do mesmo sítio e, por isso, sem horizontes novos, criados ou descortinados no meio do fumo incómodo, sempre gerado por quem não diz nada ou diz o já dito.
Agora a discussão é sobre cultura de direita ou de esquerda. Não vai longe de uma cultura de quintal ou de jardim, governado da janela, um parapeito fácil e agradável para falar de quem passa na rua, de quem vai com quem, de quem olha para cima ou de quem não levanta os olhos do chão.
É verdade que são as pessoas que geram cultura e enriquecem o património cultural acessível a todos. Se o fazem só para o seu clã, então não sei se poderemos falar ainda de cultura ou se teremos de dizer que o resultado do saber pessoal não vai além dos interesses de uma claque reduzida e fechada, que gosta de mastigar ou ruminar o que já sabe ou julga saber, mantendo a janela fechada aos ventos e saberes que sopram do lado contrário, ou de outros lados não ortodoxos.
Pôr rótulos no saber é fechá-lo no reduto pobre dos interesses pessoais ou de grupo. Faz pensar em esquizofrenia narcisista com dias contados.
Vai-se dizendo que ”abertura, cosmopolitismo, inserção no mundo” são objectivos de uma cultura de esquerda. Para gerar pessoas de esquerda e sócios para o clube, ou para enriquecer todos quantos, cada vez mais cidadãos de um mundo sem fronteiras, se desejam abrir, de modo livre e sem predeterminações de tribo, a um saber sem grilhões e a uma cultura sem rótulos?
O que dá valor e sentido à sociedade são as pessoas e estas nascem todas iguais, com capacidades e dons, todas com direito a lugar no espaço e no tempo que é seu e de todos os que coexistem no tempo. As coisas que valem, valem para todos. Se são apenas para alguns, ficam reduzidas no seu valor objectivo e no seu alcance humano e social. E todos ficam mais pobres, quer porque alguns as sonegaram, quer porque a outros não lhes foi permitido o acesso. Assim no campo cultural, económico, político, religioso. Em tudo o que os homens e mulheres têm direito e são livres de entrar. Há sempre quem goste de fiscalizar a porta para só a abrir aos que, de antemão, entram dispostos a bater palmas, aconteça o que aconteça.
A cultura que merece esse nome, é sempre um bem universal e só pode ser produzida por pessoas abertas, também elas universais e que reagem a fronteiras limitadoras, mesmo que não bafejadas por um Nobel de qualquer ramo do saber ou do agir. Cultura de direita ou de esquerda é cultura predeterminada e mutilada, produzida por gente de asas cortadas para voos curtos como os das aves de capoeira. Se algumas aves merecem ligação ao mundo cultural, pois que sejam as águias que sulcam os céus sem limites ou as aves de arribação, capazes de voar sem licença para que, em cada tempo próprio e em cada lugar propício, deixarem aqui e ali, para todos, o ar da sua graça e a expressão da sua liberdade.

António Marcelino, Bispo emérito de Aveiro

terça-feira, julho 15, 2008

Na primeira pessoa

Este artigo do jornal público que hoje transcrevo na íntegra, revela a coragem, a força, a vontade de viver e a fé em Deus de uma grande mulher. Certamente já estão fartos de ouvir falar de Ingrid Betancourt, mas porque já passaram alguns dias, considero que agora é a altura ideal para lermos esta fabulosa experiência de fé em Deus que como ela afirma nunca a abandonou!

Enfim, coisas da vida ...

Na primeira pessoa

Ingrid Betancourt esteve sequestrada pelas FARC quase sete anos. No dia 2 de Julho foi libertada com outros 14 reféns na sequência de uma operação infiltrada do Exército colombiano. Diz que foi "um milagre". E desde então tem-se desdobrado em entrevistas. Mas das torturas de que foi alvo não fala. Fala de perdão. De fé. E de amor. Por Andreia Sanches
Durante todo este tempo vivi na selva. Dormíamos em tendas feitas de material camuflado. Nos últimos sete anos, passei os dias a coçar-me por causa dos insectos. Todos os dias. Foi um inferno. Um inferno para o corpo e para o espírito. Estivemos acorrentados. Tivemos que esconder-nos. Tivemos que correr. Tivemos os olhos vendados. Tínhamos todo o tipo de dores. Dores pequenas, grandes dores... Conhecia todos os reféns que foram resgatados [no dia 2 de Julho]. Foram a minha família durante anos. Amo-os e estou muito feliz por estarem livres. Fomos torturados. Mas não vou falar sobre isso. Não estou preparada. Não sei se alguma vez vou estar. Creio que é suficiente para o mundo saber que a guerra é algo que destroça vidas e almas. Muitas coisas que aconteceram na selva têm de ficar na selva. Era a única mulher no acampamento. Tomar banho, mudar de roupa, tudo era difícil para mim. Por exemplo, tinha este cabelo que cresceu, cresceu, cresceu e lavá-lo demorava muito mais tempo que os outros. Como andava sempre atrasada eles [os elementos das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC)] passavam o dia a gritar comigo. Na selva, nunca se sabe o que vai acontecer a seguir. Pode-se estar a almoçar, num momento, e no segundo seguinte está-se a receber ordens para arrumar as coisas e ir embora. E tem-se cinco minutos para ficar pronto. E isto pode acontecer em qualquer altura. Podemos ficar num campo por um dia ou podemos ficar por seis meses. Nunca se sabe. É preciso uma disciplina especial para ir fazendo coisas diferentes, para manter a noção das datas e os dias, para manter os pés assentes no chão. Tentava fazer coisas especiais em ocasiões especiais. No Natal, por exemplo. No Ano Novo. No aniversário dos meus filhos.

Ordem para matar
Tinha um rádio. Era a minha televisão e o meu DVD e todas essas coisas que existem agora e com as quais não sei lidar. De manhã cedo ouvia as mensagens da minha mãe. Na Colômbia há um programa especial através do qual familiares de vítimas de sequestro podem enviar as suas mensagens e ela costumava telefonar. Também ouvia a BBC todos os dias. Sei os nomes de todos os locutores. E ouvia o barulho de fundo quando eles falavam, ouvia se estava vento...Vivi sete anos com a consciência de que a morte era a minha companheira de todos os dias. Sabia que eles tinham ordens para matar-me se alguém tentasse resgatar-me. Há duas categorias de prisioneiros das FARC: os prisioneiros de guerra - militares e polícias - e os prisioneiros políticos, como eu. Estes últimos são os mais odiados, somos os "porcos responsáveis pela guerra". As FARC dizem ser os únicos que combatem pelos colombianos, com as armas. Eu dizia que também combatia, mas com ideias. Tinha vontade de lhes perguntar: "Como ousam acreditar que o vosso combate é melhor do que o meu?" Eu luto pela justiça social. E contra a corrupção. Eles causam a corrupção. Pagam a pessoas do Estado para passar armas e drogas.Terei contactado com mais de 300 guerrilheiros de todas as idades, de todas as condições. Destes 300, não terá havido mais de dois ou três a revelar um comportamento de compaixão. As FARC jogam com os sentimentos. Torturam-nos e tratam-nos como um cão, mas se precisam de alguma coisa, transformam-se - e estes seres horríveis e falam com gentileza. Mas houve duas ou três pessoas que me ajudaram, apesar da pressão do grupo e de saberem que se tivessem um comportamento diferente comigo podiam ser punidos, ir a conselho de guerra, ser fuzilados. Houve um momento em especial em que estava muito doente e precisava de medicamentos. E alguém arriscou e passou-me os medicamentos às escondidas.

Bravo Maria
Passei por coisas terríveis. Acho que o pior foi ter percebido que os seres humanos podem ser tão horríveis com outros seres humanos. Num ambiente de solidão espiritual, quando à minha volta não havia mais do que inimigos agressivos, aprendi a não reagir como reagia antes. Tive que aprender o silêncio e a baixar a cabeça. Só podia falar com a Virgem. Bravo Maria. Descobri que podemos ser levados a odiar uma pessoa, a odiar com todas as forças do nosso ser e, ao mesmo tempo, a encontrar o alívio através do amor. Dizia: "Por ti, Senhor, não vou dizer que o odeio". Por vezes, um guerrilheiro vinha sentar-se junto de mim, cruel, abominável, e era capaz de lhe sorrir. À noite, sonhava com os meus filhos. Quando chegou o momento de reencontrá-los, foi melhor, muito melhor do que o que sonhei. São seres humanos fantásticos. Portanto estou muito grata a Deus porque sei que eles sofreram e que podiam estar cheios de raiva e amargura. Mas o que encontrei... como dizer isto? Foi dois seres espiritualmente elevados.No dia em que fomos resgatados acordámos às quatro da manhã, como habitualmente. Como sempre, rezei. Ouvi as notícias na rádio. Ouvi as mensagens da minha mãe. Depois tiram-me as correntes e disseram-nos que tínhamos que preparar-nos, arrumar as coisas. Soubemos que havia um helicóptero a chegar com uma espécie de comissão internacional que queria falar-nos... mas não sabíamos ao certo o que ia acontecer. Um dos comandantes veio falar comigo e perguntei-lhe o que é que podíamos esperar. Disse que o helicóptero iria levar-nos para outro local para, provavelmente, falarmos com um comandante superior. Disse-nos que talvez nos fossem libertar, ou transferir para outro local, ou que talvez voltássemos ao acampamento.Partilhei essa informação com os meus companheiros. Pensámos que talvez um de nós fosse ser libertado. Rezávamos para que fosse a nossa vez. Mas não queria ser libertada sem ser com os outros, não queria que isso acontecesse.Depois ouvimos os helicópteros. Atravessámos o rio e ficámos perto do local onde foi feita a aterragem. Do helicóptero saíram quatro homens e uma mulher. Os meus companheiros perguntavam-me: "São franceses? São suíços?" E eu dizia: "Não sei, não sei quem são. Não reconheço ninguém." Os guerrilheiros mandaram-nos calar. Estavam excitados e agressivos.Achei que aquilo afinal não era nenhuma comissão internacional. Que era uma fraude. E havia um homem com uma câmara a filmar-nos. Senti-me muito desconfortável. Não queria que ele me filmasse. Pensei que queriam mostrar ao mundo que estávamos vivos e que iam usar aquelas imagens para dizer ao mundo que eram bons tipos e que nos estavam a tratar bem e que nos iam manter no cativeiro mais cinco ou seis anos. Disseram-nos que para entrarmos no helicóptero tinham que amarrar-nos as mãos. Foi muito humilhante. Tínhamos aqueles tipos armados à nossa volta e queriam amarrar-nos as mãos? Um grito do fundo do estômagoQuando o helicóptero levantou voo, neutralizaram o comandante que entrou connosco. Toda a gente o estava a pontapear. E depois ouvimos a voz do líder do grupo a dizer: 'Somos do Exército colombiano. Estão livres." Não consigo encontrar palavras para descrever... tinha que ser real. Quem iria brincar com uma coisa daquelas? O tipo que gritou transmitia uma energia incrível. Foi maravilhoso. Gritei. Foi um grito que veio do fundo do meu estômago. E depois abracei toda a gente, beijei toda a gente... quer dizer.... foi de loucos. Foi muito intenso. Chorámos. Não foi o melhor momento da minha vida - o melhor momento da minha vida foi o nascimento dos meus filhos. Mas foi o melhor momento desta provação. A viagem no helicóptero pareceu durar uma eternidade. Estava assustada. Pensava: "E se o helicóptero cai? E se tivermos um acidente?" É estúpido, mas pensava nisso. Perguntei: "Quanto tempo vamos demorar?" Disseram-me três minutos. E aqueles três minutos pareceram uma eternidade. Agora que estou livre sinto-me noutro planeta. Aquelas pessoas [os guerrilheiros] parecem-me... extra-terrestres. A única coisa que quero, e rezo por isso, é que Deus os abençoe.

Tenho que construir uma vida
Os últimos dias têm sido intensos. Estou exausta. Estou num estado de euforia. E espero que não passe. Espero não me esquecer do quão bom é estar viva e ser livre. É um privilégio. Sei que não tenho uma vida, tenho que construir uma. Sei que os meus filhos têm a sua vida e que têm que continuar com ela. Estou a aterrar da pára-quedas na vida das pessoas que têm as suas actividades diárias e eu não tenho nada. Há seis dias estava acorrentada a uma árvore. Agora estou livre e a tentar perceber como é que vou viver daqui para a frente. Nas primeiras noites em que voltei a dormir numa cama só pensava como é incrível. O meu corpo estranhou e gozou cada bocadinho. É fácil adaptarmo-nos às coisas boas. É difícil habituarmo-nos às más. Não quero esquecer o que aconteceu, mas quero perdoar. Aprendi a perdoar. E não apenas os meus carcereiros, mas também os meus companheiros com quem tive, por vezes, momentos difíceis, as pessoas que amava e que disseram horrores como por exemplo "se foi sequestrada foi porque se pôs a jeito."

Nunca, nunca, nunca perdi a fé.
Deus esteve comigo do primeiro ao último dia da minha horrível experiência. E Ele continua comigo. E eu rezo todos os dias. Desde o momento em que fui libertada peço-lhe que nos conceda o milagre de libertar os outros reféns como fez connosco. Porque para mim foi um milagre.
No dia 20 de Julho há uma grande marcha na Colômbia para pedir a libertação dos reféns, para dizer às FARC: "Párem. É infame o que vocês fazem." Quero que este combate não seja só um combate dos colombianos. Quer que seja um combate de todo o mundo. Os reféns precisam que se lute por eles como se lutou por mim.

A partir de entrevistas de Ingrid Betancourt a Larry King, na CNN, à BBC e aos jornais The Guardian, Libération e La Croix

sexta-feira, julho 11, 2008

A melhor maneira de agradecer

Como é natural aqueles que usamos a internet diariamente, temos leituras diárias quase-que-obrigatórias, o blog do meu amigo pe. Migalhas é um desses. Para mim é uma das pérolas mais preciosas que encontro na internet escrita em português, sendo que, é um daqueles espaços que mais me deixa a pensar na "vida"! De quando em vez, não resisto a transcrever os seus relatos para este meu espaço virtual, porque considero que as suas histórias não devem ficar fechadas no seu espaço dada a riqueza espiritual que comportam.
Esta que hoje apresento, revela precisamente o conceito que tenho de Deus, dentro da linha que aprendi e vou aprendendo ao longo destes anos. É este Deus próximo, amigo, companheiro de estrada, amante e confidente que acredito veemente ser aquele que Jesus nos veio revelar. Pelo menos no meu estudo da teologia, foi assim que depreendi os conceitos - graças a Deus!

Como o texto já vai longo, deixo-vos então com mais esta pedra preciosa.


Enfim, coisas da vida ...

Pediu licença para entrar. Notei-lhe o rosto alegre, mas com alguns sulcos de tristeza. Convidei-a a sentar-se. As palavras saíam-lhe como que num turbilhão:
"Não sei por onde começar. Faz hoje um ano que saí deste hospital. Não sei se ainda se recorda de mim. Vim junto de si algumas vezes para procurar ajuda. Fui para casa e passados três dias morreu o meu genro. Ainda não tinham passado 4 meses e morre a mãe dele com um câncro no pâncreas. Há dois meses apenas, descobriu-se que eu tinha um tumor também no pâncreas. Tive de fazer exames rigorosos. Vim hoje saber o resultado. Nem imagina a minha apreensão. E a da minha família. A minha filha está a sofrer muito por imaginar o pior. Felizmente os resultados dizem que não é maligno. Estou feliz. Já fui à capela agradecer a Deus. Mas sinto que as palavras que Lhe disse não bastam. Que hei-de fazer mais para agradecer a Deus?"
"Já telefonou à sua filha a dizer que não é nada maligno?"
"Não. Ainda não. Não tenho telefone".
Passei-lhe o meu telefone para as mãos.
"Ligue daqui. E já! Diga-lhe que está tudo bem".
Ligou. Falaram. Choraram as duas. De alegria.
"Obrigada. Estou mesmo feliz. Graças a Deus!"
"Vê? Essa foi a melhor maneira de agradecer a Deus: fazer alguém feliz (a sua filha) com a boa notícia que tinha para lhe transmitir. É assim que Deus nos quer ver: felizes. Essa é a melhor maneira que temos para Lhe agradecer".
Partiu. Feliz. E Deus também ficou.

quinta-feira, julho 10, 2008

Sacerdotisas?

1. A sábia prudência pode conduzir a não problematizar. Mas o encarar os horizontes de futuro obriga a reflectir. Nem seguir as euforias do progressismo nem o fechar da reflexão como se a história não fosse por essência (divina) aberta e à descoberta. Não é novidade para ninguém a matriz patriarcal como noção de “serviço/poder” do judeo-cristianismo, factor que presidiu à configuração das religiões monoteístas e igrejas ao longo dos tempos, mas que retardou mesmo a assumpção social e cultural do horizonte do feminino nas sociedades. A própria possibilidade de um debate teológico aberto, metódico e coerente, no seio das instâncias do Vaticano é ainda uma miragem; a noção de uniformidade de pensamento num dado tão acessório como a “ordenação de mulheres” é bem pesada, o que condiciona toda a estrutura eclesial a não poder dizer outra coisa senão o que diz a estrutura superior: que o assunto está bem como está e que não é sequer para pensar nele!

2. Se se fosse, efectivamente, a pensar a sério nestas questões concluía-se algo tão simples como que Jesus Cristo não fez acepção de pessoas em termos de género (masculino ou feminino) e que escolheu, naturalmente, condicionado pela cultura patriarcal sua contemporânea, e que hoje escolheria seis homens e seis mulheres; ou melhor convidaria culturalmente em função da competência e liderança e não de qualquer outro critério como o de género ou de raça. Esta conclusão, tão simples, a par de outras mais complexas obrigaria a terminar o “discurso da compensação”, quando se procura “iludir o sol com a peneira” ao dizer-se que «a mulher tem na Igreja um papel fundamental» e possui mesmo uma «visibilidade muito grande», como se refere nestes dias (pelo presidente da CEP), fundamentando a rejeição ao pensar da ordenação de mulheres e, ainda, dizendo que entre a própria comunidade protestante o assunto não é pacífico…

3. Sente-se que o mundo precisa mesmo de profetas. A admissibilidade da ordenação de mulheres (e referimo-nos exclusivamente a esta matéria), assunto sensível que vem à tona da água em momentos em que a comunidade anglicana antecipa o futuro, simboliza hoje a necessidade de ir à essência do Cristianismo. O ano dedicado a São Paulo, que faz 2000 anos de nascimento, poderia ser oportunidade de abrir, ao jeito ousado de Paulo, alguns “dossiers” de algumas “questões” absolutamente acessórias (que continuam a ser faladas nos bastidores), mas hoje mais importantes que nunca, em relação à força central da Mensagem de que as igrejas são na história o esforço da presença viva. A sociedade civil, nesta questão concreta da coerência de género, vai muitíssimo à frente. É, naturalmente, preciso coragem (Paulina) para aprender dos valores do bem comum sabendo situar-se no tempo cultural presente. É evidente que não dizemos que tudo o que é tido de “moderno” é bom, de maneira nenhuma…

4. Também há quem veja nesta questão uma dimensão de reivindicação feminista; de maneira nenhuma, não é isso. Será sim, a necessidade séria, coerente e urgente de aprofundar o essencial do Cristianismo, de “joeirar” o que foi sendo a “ferrugem” da história e aceitar a conversão no novo e desafiante tempo do séc. XXI (B. Haring). Esta questão do sacerdócio feminino, com seriedade e serenidade, talvez seja uma dessas questões decisivas. Não a querer ver, primeiramente como sério debate, é fechar a portas ao presente-futuro. E tanto que o mundo precisa de “ar fresco”! A prudência, quando apreendida da viagem da história, conduzirá à abertura de espírito nas grandes questões; até porque o que se deseja para o mundo tem de ser viver “ad intra”. Toda esta reflexão no “princípio da racionalidade” (ponto de contacto com o mundo que se procura servir), que tudo sabe fundamentar e debater, não é nada de novo…

Alexandre Cruz [08.07.2008]
foto retirada do blog http://1632un.blogspot.com