sexta-feira, agosto 04, 2006

Entrevista: “Não vejamos no outro um inimigo, mas sim um ser igual a nós”

Entrevistámos António Marcelino, Bispo de Aveiro, a propósito do lugar da igreja católica na sociedade actual. A importância do voluntariado como novo símbolo de prática cristã no mundo actual e a posição da igreja face a alguns assuntos que a sociedade denomina de dogmas, foram alguns dos assuntos abordados.

"Os pais, ainda que perturbados, querem o melhor para os seus filhos"
Moliceiro.com - A diocese de Aveiro tem muitos crentes?

António Marcelino (AM) - A prática religiosa tem sempre um índice que podermos apreciar. Há muita gente que tem prática religiosa de culto, mas muito menos que no passado, principalmente nas faixas etárias mais jovens. Contudo, a diocese de Aveiro tem uma prática religiosa habitual. É uma região do país de grande marca cristã. No baptismo atinge quase cem por cento. Na prática dominical anda à volta dos 30 por cento. O que é bom no conjunto do país. Há muitos fenómenos, que explicam esta diminuição. Hoje em dia há menos casamentos, mesmo civis. Há mais uniões de facto. O matrimónio requer um sentido de estabilidade, que advém das pessoas que o constituem, dos filhos que geram, do contexto em que vivem. Mas há vários índices positivos da prática da vida cristã. Actualmente há mais gente empenhada apostolicamente. Aumentou o número de voluntários ao serviço da igreja, em todos os aspectos. E isso é um dado religioso que muitas vezes as pessoas não se apercebem. O voluntariado é uma força que está na sociedade, por isso gosto de o sublinhar, porque comprova que a prática religiosa não é só ir à missa.
Moliceiro.com - Isso significa que, embora, as pessoas estejam afastadas das práticas religiosas, optam por dedicar o seu tempo a ajudar os outros?

AM - As pessoas que vão à missa também são voluntárias. Agora há outras pessoas voluntárias que não têm prática cultoal (de ir culto), mas que descobriram outra dimensão religiosa nas suas vidas que é fazer bem aos outros.
Moliceiro.com - Estas mudanças estão ligadas a um mundo actual?

AM - Nós podemos encontrar sempre muitas razões. Todas elas não sendo exclusivas, são complementares. É evidente que quando pensamos na ocupação da mulher com o horário profissional, temos que compreender muitos dos aspectos que antes eram habituais, como é o caso do culto religioso. Por outro lado, a sociedade actual é secularista, laicista, facilitadora. Tudo de passagem, nada definitivo. A acção religiosa é permanente na vida de pessoas coerentes e com motivações e é um problema para os mais novos, cada vez mais dispersos e com um maior leque de informação.
Moliceiro.com- Há, por isso menos crianças a seguir a catequese?

AM - Isso não. Os pais, ainda que perturbados, querem o melhor para os seus filhos. As nossas catequeses não diminuíram o número de crianças. Os pais querem mesmo que elas sigam a catequese. Os que não o fazem são uma minoria implementada nas. Isso pode acontecer nas maiores cidades. A grande maioria dos pais, mais de 90 por cento, opta por educar os filhos na catequese.

Crise de vocação religiosa?
Moliceiro.com - E os jovens aderem muito a grandes encontros católicos.

AM - O mundo dos jovens é mais religioso do que se possa imaginar. É um mundo simbólico, momentâneo, de entusiasmo. Por isso, as multidões. Os jovens cultivam-se em grupos e exprimem as suas próprias opções em multidão. Não quer dizer que todos tenham igual convicção e que voltem de lá convertidos. O fenómeno da conversão é lento, desenvolve-se passo a passo. Os jovens que cresceram marginais à igreja, mantêm essa marginalidade, ou até se vão reencontrando. Há outros que crescem no seio da igreja e que se vão afastando, por razões meramente pessoais, grupo de amigos, factores de ordem ideológica.
Moliceiro.com - Os grupos de jovens podem ser considerados locais de ocupação de tempos livres e de encontro com amigos?

AM - Os jovens de hoje não precisam muito de ter encontros organizados pela igreja para poderem conviver. O mundo da sua convivência vai desde a discoteca ao café. É um muito variado. Quando ando em visitas pastorais e faço encontros com os jovens, costumo falar com eles de assuntos diversos e não só sobre a igreja. Ouço os problemas que os preocupam e tento orientá-los e motivá-los.
Moliceiro.com - Será que encontram ali a compreensão e atenção que falta em casa?

AM - Muitas vezes acontece isso. Os jovens têm crises variadas e as mais inesperadas. Uma crise religiosa num jovem pode vir de uma desilusão amorosa. O problema que enfrentam naquele momento parece que vai acabar com o mundo. O importante é que os jovens tenham alguém que os possa ajudar, aconselhar e mostrar que a vida tem sempre dificuldades, para que possa ter êxito. Nesse aspecto, escolas como o escutismo são muito importantes, na aprendizagem em comum, no trabalho de equipa e no desenvolvimento do espírito pela natureza.
Moliceiro.com - E quanto à vocação religiosa. Há mais jovens a seguir este caminho?

AM - A tradição da igreja do ponto de vista de vocações começava em crianças. Eu fui para o seminário com 12 anos. Hoje só recebemos no seminário a partir do 10º ou 12º anos, ou até já com curso feito. Tenho um exemplo de um seminarista, que já tirou o curso de História há uma série de anos e está agora a seguir teologia. Actualmente, Há uma paisagem de compreensão dos problemas vocacionais diferente. Não temos de estranhar a dificuldade e a diminuição dos jovens na vida sacerdotal ou religiosa, porque o mesmo acontece relativamente à ordem matrimonial. O matrimónio também é uma vocação, porque exige cuidados, disposições para o diálogo, compreensão e partilha. Factores que a sociedade de hoje não tem. Noivos, casados há pouco tempo separam-se logo de seguida. Esta superficialidade do mundo actual leva as pessoas a ter dificuldade em considerar vocações que têm um sentido de permanência. No mundo do emprego encontramos pessoas que já passaram por vários sítios voluntariamente. Outras têm uma formatura e decidem seguir outra diferente. A instabilidade ou a pluralidade de opções leva a que muitas pessoas tenham sempre dificuldade em se dar ao permanente.
Moliceiro.com - A sociedade coloca muitas culpas aos “dogmas” da igreja. Alguns jovens afirmam querer ser padres e não o fazem devido às exigências do cellibato.

AM - Quando uma pessoa tem convicções profundas, não tem medo de nada. Quando não tem convicções profundas, começa a ter dificuldades e medos. Se a pessoa sabe que a sua opção sacerdotal é uma opção de fé, ela avança, enfrentando as dificuldades. Quando a sua escolha tem tantos receios e questões, significa que a grande motivação para o sacerdócio ainda não existe. A questão não está no facto de ser ou não padre, poder ou não casar, mas sim de entregar a minha vida toda ao serviço dos outros, sem outra consciência e responsabilidade que não seja o compromisso para com eles. Certamente que as pessoas não compreendem assim, porque o problema daqueles que não vão para a frente por força da exigência do celibato, é sinal que o sacerdócio ainda não os apaixonou. O sacerdócio não é uma realização meramente pessoal, é um dom que sente e se entrega aos outros. Isso compensa tudo. Podemos enfrentar dificuldades, mas passar um dia inteiro ao serviço do próximo é uma coisa maravilhosa.

"As pessoas negam-se ao diálogo facilmente"
Moliceiro.com - As pessoas já não aceitam o ponto de vista católico?

AM - Hoje em dia, cada pessoa acha que tem sempre razão naquilo que quer e naquilo que diz e não aceita qualquer espécie de confronto. Por isso, a sociedade é pobre. Ser tolerante é respeitar as opiniões e somá-las para nos enriquecermos. As pessoas negam-se ao diálogo facilmente. Isto significa a perda de uma das dimensões mais fundamentais da sociedade - a relação.
Moliceiro.com - Mas a sociedade acusa a igreja de não mudar de opinião relativamente a certas questões?

AM - E eu pergunto: porque é que discutem mais as coisas da igreja? Porque se vão a uma repartição, podem dizer o que quiserem, mas têm de cumprir a lei. Na igreja não é assim. A igreja não dá sanções. É mais dialogante. Tudo o que é mudança para mais comodidade, é bom, quando não, é mau. A igreja não tem que mudar o essencial, porque este não muda, mas sim a linguagem para as pessoas perceberem o que é essencial e imutável.
Moliceiro.com - Acha que as pessoas vão voltar a aproximar-se da igreja católica?

AM - Há sempre possibilidade. A pessoa humana é o mais misterioso dos seres.
Moliceiro.com - Significa então que “as pessoas só se lembram de Santa Bárbara quando troveja”?

AM - Isso também corresponde ao que é o dia-a-dia. Eu só vou ao médico quando tenho uma dor. As situações são sempre apelos a determinado tipo de manifestações. Há muitas pessoas que não vão à missa, mas quando chega a altura de organizar as festas religiosas, são as primeiras a oferecer-se. Porque querem que a tradição se mantenha. O mundo religioso é misterioso e temos sempre que acreditar. E Deus dá ocasiões às pessoas para se encontrarem. Conheço pessoas que jamais tinham pensado em ir à igreja, e hoje vão, por uma doença, desastre, ou por conversa com um amigo. Quem diz que isso não pode acontecer até ao fim. O apelo de Deus faz parte da nossa própria natureza e não se apaga.
Moliceiro.com - Que mensagem gostaria de deixar para o ano de 2006?

AM - Os anos são todos iguais. Somo nós que os construímos. Há anos que trazem desastres naturais e as pessoas sobrevivem. O que eu digo às pessoas é: estejam vivas no tempo. Não deixem que o lugar que ocupam seja ocupado por outros. O bem comum constrói-se com esforço. Todos temos muito de bom, mas é preciso desenvolver. Olhemos uns para os outros sem preconceitos. Demos a mão sem preconceitos. Não vejamos no outro um inimigo, mas sim um ser igual a nós. Dar a mão ao outro não significa que concordamos com tudo o que ele diz e faz. É importante a sua pessoa, do que a sua opinião ou atitude

retirado do site: http://www.moliceiro.com/
em 28.7.2006

Transcrevo aqui na integra a entrevista que o Bispo de Aveiro, D. António Marcelino deu à rádio Moliceiro. Destaco uma frase que acho relevante e de uma importância extrema "A igreja não tem que mudar o essencial, porque este não muda, mas sim a linguagem para as pessoas perceberem o que é essencial e imutável.".
Se olharmos e estudarmos bem esta frase poderemos verificar que é precisamente esta acção evangelizadora com nova linguagem e novos métodos que é necessária fazer na sociedade actual.
Uma grande entrevista (apesar de pequena) a um grande homem e um enorme pensador e pastor da Igreja em Portugal. Bem haja, D. António Marcelino.

Enfim, coisas da vida ...

1 comentário:

RPM disse...

olá Camarada Amigo...

Feliz dia. Escrevo no pc jurássico do meu pai que está na loja deles...

olha! um texto muito interessante e com uma mensagem muito clara. A fé está e constrói-se ao longo da vida e a IC está sempre com uma mensagem simples....mas como é uma organização de Homens....há falhas...mas estou feliz por ser católico. Em Roma não gostei do que assisti, mas isso é um assunto para outras conversas contigo.

Um abraço grande de amizade, cumprimentos à família e se passares por Campo de Besteiros, 965517071 ou 919654034.

Abraço grande

RPM

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