sexta-feira, novembro 16, 2007

A pequena grande SARA

Veja o que me aconteceu, padre. Os seus olhos estavam vermelhos. Notava-se que tinha estado a chorar. Vinha da Capela do Santíssimo. Tenho de contar-lhe, padre. Sentámo-nos. Tentei esconder a minha preocupação. Trata-se de uma mulher sofrida. Viúva. Nova. Trabalhadora. Imaginei o pior. Com este estado do país bem poderia ter perdido o emprego. Ontem a Sara fez anos, padre. A Sara tem oito anitos. Ainda conheceu o pai, mas já não se lembra das suas feições porque ele partiu há mais de cinco. O que terá feito desta vez a Sara, perguntei-me. Era minha acólita. Apesar de irrequieta, está sempre atenta na missa. Não é propriamente uma garota desvairada.A história que a mãe contou começou há uns meses. À noite a Sara costuma ajoelhar-se à beira da cama para falar com Jesus. Aprendeu na missa que rezar é falar com o Jesus que se ama. Eu costumo dizer que rezar é um diálogo de amor entre dois namorados, nós e Deus. Uma conversa que pode ser com palavras feitas, com frases comuns e com olhares. Ela optava por simplesmente falar. Contava a mãe que a Sara queria uma bicicleta. Como ela não podia comprar-lha, decidira pedir a quem fosse mais poderoso que a mãe, isto é, Jesus. A mãe tinha-a apanhado a pedir a Jesus que lhe oferecesse uma bicicleta no dia de anos. E contava-me que lhe tinha faltado a coragem para a demover do pedido. Depois notou que a conversa era quase sempre a mesma todas as noites e começou a ficar preocupada. E ontem, padre, ontem não houve bicicleta. Eu bem tentei poupar. Mas não houve. E à noite lá estava ela de bruços sobre a cama. Eu pensei que ela chorava. Abeirei-me, afaguei-lhe a cabeça e perguntei: Estás zangada com Jesus por Ele não te ter respondido, minha filha? E sabe que respondeu ela? Disse-me que não e que Ele lhe tinha respondido. Que lhe tinha dito que não. Que não podia dar-lhe a bicicleta. Fiquei perdida, padre. Já agradeci a Deus. Não agradeci a bicicleta que ela queria, mas a filha que me deu. Tinha de contar-lhe isto, porque tinha de o contar a alguém e a alguém que me percebesse, que percebesse a minha alegria. Afinal o padre está sempre a dizer que é bom pedir na oração, mas que esta não deve ser um negócio com Deus. De facto é bom pedir, porque significa reconhecer as nossas limitações, os nossos limites e confiar n’Aquele a quem pedimos. Mas não podem ser fórmulas mágicas de compra e negócio com Deus. E eu que pensava vir por aí mais um problema para resolver, recebi uma alegria para me encher de Deus. Depois que a mãe me deixou e logo que tive oportunidade, dei um beijo enorme e repenicado à Sarita, que estava por ali perto a tratar da sua alva.
retirado do blog:
http://eupadre.blogspot.com/

Sinceramente este texto tocou-me profundamente! Como é possível nós adultos não conseguirmos ter a confiança plena em Deus? Ele que está sempre atento às nossas necessidades e aos nossos anseios e apesar de tudo só sabemos "pedir, pedir, pedir" e "exigir, exigir, exigir" quase como de uma troca comercial se tratasse - eu rezo e Tu dás-me o que pretendo.
Ainda estou sem palavras para expressar o forte sentimento que me assolou quando lia este texto. É bonito, simples e é uma ENORME CATEQUESE. Vale bem mais do que os 60 minutos que possamos estar a falar com as crianças. Esta menina claramente "já tem a missa toda" como se costuma dizer, ela sim é que nos devia "dar catequese", pelo menos para mim deu-me a catequese de hoje, obrigada Sara...

O que acham? concordam ou nem por isso?

Enfim, coisas da vida ...

1 comentário:

Paulo disse...

Gostei imenso deste artigo que também li lá