quinta-feira, abril 10, 2008

Mais vale matar crianças do que assassinar maridos

Há dias em que tomamos consciência da inconsistência de muitas das coisas que nos rodeiam, e de como o mundo vai girando, aparentemente indiferente a essa incoerência. E nós com ele. Ontem, o tribunal condenou Maria das Dores, a mulher que contratou um homem para matar o marido, a 23 anos de prisão. A senhora não esteve presente na leitura da sentença porque, segundo constou, estava a recuperar de uma tentativa de suicídio, embora uma reportagem da revista SÁBADO sobre a sua vida na prisão, e de que o Destak publica um extracto por antecipação, Maria das Dores pareça sofrer de um distúrbio mental grave.
Ou de maldade pura, como se diria há alguns anos, antes de procurarmos explicações psicológicas para estes «fenómenos».
Matar o marido é um crime grave, mas a notícia trouxe-me à memória, num flash assustador, a sentença do pai da «criança de Viseu», que aos 2 meses deu entrada em coma no hospital, vítima dos seus maltratos.
O pai, diz o acórdão, e desculpem a crueza, mas às vezes precisamos de ser confrontados com uma realidade que preferíamos acreditar não existir, «introduziu no ânus do bebé objectos que causaram traumatismos e fissuras profundas», e estamos a falar de 55 pontos necessários para as suturar, num corpo que não media mais de 70 cm. Ficou também provado que lhe batia com uma ripa de madeira envolta em panos para não deixar marcas.
O juiz concluiu que a criança teve dores horríveis e reiteradas, já que as sessões de tortura foram muitas, e confirma que o bebé só não faleceu «devido aos cuidados médicos que lhe foram prestados», mas que sofrerá de sequelas irreversíveis.
Apesar disso, o pai, que para todos os efeitos a matou, foi condenado a 10 anos, porque a lei que rege os crimes de abuso sexual não permite mais.
E como se esta ligeireza não fosse chocante, soma-se-lhe o facto de que, tanto quanto conseguimos apurar, ainda não lhe ter sido definitivamente retirado o poder paternal. Vivemos, de facto, num país onde o direito dos menores é menor.

fonte: editorial do jornal destak do dia 10.04.2008
[imagem Isabel Stilwell] fonte:
www.destak.pt

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