segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Uma pedrada por semana

Entendimento impossível ou horizonte onde todos caibam?

Uma mão amiga fez-me chegar a página de um jornal que se intitula “diário ateísta” e que, no título do pequeno artigo, logo se apressa a dizer que “os hospitais da UC são uma coutada da Igreja Católica. Apostólica Romana (ICAR)”. Tudo isto a propósito de alguns cartazes da pastoral da Saúde, colados nas salas de espera da consulta externa, com alusões explicitas à esperança que nos vem da Ressurreição do Senhor e ao sentido positivo da dor “perante a vida, perante os outros, perante si próprios”. Para o articulista, o escândalo é ainda maior frente a um outro cartaz, de um movimento que não conheço e se intitula “Evangelização e Serviço integral dos doentes de família”, que cita Isabel Leseur escrevendo como “a dor pode ser, como aliada dos desígnios de Deus, ocasião de conversão, interiorização e salvação do homem”.
A tudo isto chama o diário ateísta “terrorismo psicológico” e faz invectivas contra a enfermeira que colou ali tais cartazes, desafiando os “propagandistas da fé” a reagir se aí aparecesse um cartaz esclarecedor que apenas dissesse a palavra de Nietzsche: “A única desculpa de Deus é não existir”.
Haverá aspectos pelos quais se poderia questionar a colagem destes cartazes naqueles lugares, mas que era bom ouvir antes os doentes e familiares presentes sobre a sua reacção. Com reacções assim, não parece possível o entendimento. Um raciocínio unidimensional será sempre paralelo a toda a possibilidade de encontro esclarecedor, enriquecedor e respeitador de cada um. Onde não há Deus, poderá acaso haver horizontes humanos largos onde todos caibam?

António Marcelino in Jornal
Correio do Vouga
[imagem Painel de azulejos no átrio dos H.U.C. ] fonte: http://www.huc.min-saude.pt/

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